Valeria Olivari, de 33 anos, chegou a Portugal há cinco. Desde pequena que ajudava e fazia mil e uma questões às empregadas que cozinhavam em sua casa. A pastelaria piscou-lhe o olho desde cedo mas abrir um restaurante nunca esteve nos planos. No Peru não existem estrelas Michelin. Mas existe uma “dispensa de produtos”. E isso foi o suficiente para trazer um pouco do seu país até à sua casa, em Lisboa.
Estar longe da família poderia ser o maior desafio para Valeria, mas Lisboa acolheu-a de tal forma que aqui sente-se em casa. Visitou pela primeira vez uma cozinha em Portugal quando aos 23 anos o seu chefe a desafiou a vir fazer um estágio no Vila Joya, em Albufeira. Até hoje, foi o restaurante por onde mais gostou de passar. “Deu-me disciplina”, relembra.
No Peru, foi chefe de pastelaria do Rafael Osterling e Gastón Acurio, duas grandes referências da gastronomia peruana. Rafael foi o seu “mentor” e com quem Valeria aprendeu e evoluiu mais. Sabia que ela não ia ficar por ali e quando Valeria revelou que queria ir conhecer e trabalhar para Madrid, ele tornou o sonho realidade.
Em Espanha, viajava muito até Portugal onde ficou encantada com as pessoas, a comida, os mariscos, o clima e, em 2012, decidiu mudar-se. Durante o primeiro ano trabalhou no Olivier Avenida e mais tarde com José Avillez, no Tavares. Se até ali o foco tinha sido sempre para a doçaria, em Portugal as coisas mudaram e a cozinha era cada vez mais um mundo que a fascinava. Ainda sem certezas do que queria fazer decidiu explorar o país e realizar uma viagem “às aldeias do interior”. Foi o encontro com a cultura da gastronomia portuguesa na sua forma mais tradicional que a apaixonou. Valeria sorri: “Vocês aqui têm tudo, são uma dispensa de bons produtos”.
Las Cholas é outra história.
Valeria estava a preparar um jantar na Embaixada do Peru, quando alguém entrou pela cozinha a perguntar quem tinha feito “aquelas bolachas”. Os alfajores, uma bolacha de manteiga muito típica do Peru, foi o ponto de partida para as Las Cholas. A escolha do nome foi muito fácil. Cholas é o nome dado às mulheres das montanhas dos Andes com sentido depreciativo, conta. Para Valeria, estas mulheres são umas guerreiras: “Quem me dera a mim ter a sua força”. Foi em homenagem a estas mulheres que surgiu ‘Las Cholas’.
Inicialmente o espaço foi desenhado apenas para ser uma cozinha, mas durante a construção Valeria apercebeu-se que poderia ter uma sala e poderia começar a preparar os jantares ali. E assim foi.
Alfajores, empanadas de vitela e passas ou atum e tomate, ceviches ou chicha morada, uma bebida feita com milho negro do Peru, são algumas das coisas que pode encontrar no atelier ‘Las Cholas’.
Valeria não quer um restaurante comum onde se possa ir todos os dias, por isso, aceita reservas para jantares com mínimo de 12 pessoas, para que seja uma noite íntima e de partilha de experiências. A cozinha aberta dá lugar a que quem venha possa ficar a conhecer mais sobre comida peruana. Até à data, ‘Las Cholas’ tem organizado também jantares únicos com chefes convidados. O primeiro foi com Andy Boman, do restaurante El Flaco, em Madrid. Bruno Rocha, do restaurante Flores do Bairro, também esteve a preparar um menu a quatro mãos com Valeria e, no verão, a anfitriã espera receber Omar Malpartida do Tiradito & Pisco bar, em Madrid.
Portugal trouxe-lhe “muitos amigos” e passo-a-passo quer continuar a dar a conhecer o seu trabalho. A pastelaria esteve sempre no sangue, apesar de agora querer focar-se nos salgados. Valeria sorri, não há refeição nenhuma que não termine em alguém a comentar: “estava tudo bom, mas a sobremesa…”. De pés assentes na terra, sabe que não pode ter tudo de uma vez e que é preciso objetivos definidos. Mas foram os altos voos que a trouxeram a Lisboa.
Contactos:
Rua Carlos José Barreiros, nº 20
Arroios, Lisboa
Telf.: 960 475 923
Aberto de segunda a sexta-feira das 9h às 17h.
