As bibliotecas estão coalhadas de livros leves e pesados contendo definições do amor, a Internet plasma para o espaço cibernético essas definições colhidas nos autores clássicos e destes tempos, possibilitando a superação das dificuldades na abordagem deste tema vasto salpicado por milhões de referências estéticas, éticas e morais.
O que é o amor? No século passado até aos anos sessenta, nos meios rurais, os rapazes quando pretendiam declarar-se às raparigas da sua eleição e desprovidos de engenho para o fazer directamente recorriam a um “manual” de cartas de amor e escolhiam a que lhes parecia mais adequada ao seu sentir. Ainda nos dias correntes encontramos nos alfarrabistas os referidos manuais e, por curiosidade ou não, há quem os compre, certamente, para, após a sua leitura, dizerem tal como Álvaro de Campos, (heterónimo de Fernando Pessoa) disse: todas as cartas de amor são ridículas.
Ridículas não são as composições poéticas dos trovadores, as suas cantigas de amor eivadas de fecundo lirismo exprimem paixão, pungente tristeza quando não correspondida, melancólica saudade se o amado é obrigado a separar-se da amada, estrepitoso ciúme ante um possível ou efectivo rival, ridente felicidade aquando o amor é correspondido.
A poesia trovadoresca tem as raízes na Provença, começou a despontar no século X, tendo-se expandido para a Península Ibérica a partir do século XI, a par das Cantigas de Amor, temos de considerar as Cantigas de Amigo e de Escárnio e Maldizer. Em Portugal, os trovadores deixaram notáveis composições inseridas nos cancioneiros. As coletâneas de canções medievais podem ser consultadas e lidas no Cancioneiro da Vaticana, no Cancioneiro da Ajuda e no Cancioneiro de Colocci-Brancuti, copiado por ele, anteriormente conhecido como Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa.
Lembrar as cantigas de amor antigas de séculos, quase um milénio, de matricialidade portuguesa é salutar, no entanto, persiste a interrogação, o que é o Amor? A interrogação obriga-nos a recuar até à Antiguidade Clássica, pelo menos à leitura de o Banquete – Simpósio ou do Amor, de Platão, no qual o filósofo teoriza sobre Eros ou o Amor, mas sobretudo é Apuleio aquele que nos dá uma significação do Amor num romance cujas personagens são Eros e a Psique.
Eros é a expressividade do bem e do belo, Psique a realidade dessa tendência, ela só pode intuir o jovem durante os encontros nocturnos, no entanto, impulsionada pela irmã não hesita em, de candeia na mão, o contemplar enquanto ele dorme, porém da candeia escorre uma pinga de azeite fervente quebrando o sono a Eros. A deusa Vénus quando sabedora do acontecido diz a Eros para ferir Psique no coração de modo a matá-la. Eros não cumpre a ordem de Vénus porque ficou enamorado de Psique, os dois fogem para um palácio levados por Zéfiro (na Mitologia grega Zéfiro é o vento do Oeste).
De grosso modo, o romance de Apuleio é transposição simbólica da crença na imortalidade da alma tão cara aos cristãos e representada em múltiplas obras de variados géneros, desde as artes plásticas à Literatura – romance, conto, poesia, novela, teatro – passando pelo canto, a dança e a música.
O mito do amor sublime, etéreo, eterno, também aqueceu o coração de homens e mulheres de outras paragens. No que tange à civilização ocidental, o amor entre Tristão e Isolda é um dos mais apaixonantes; fora do mito, bem dentro da realidade o trágico desfecho do amor ente Pedro Abelardo e Heloísa sua aluna, o filósofo escolástico de grande reputação intelectual ao tempo (século XI e XII) prendeu-se de amores pela pupila e recebeu cruel punição: foi castrado. As cartas de amor trocadas pelos dois amores revelam a grande erudição e estoicismo de Abelardo e a amargura de Heloísa.
O mito de Tristão e Isolda influenciou a produção cultural de várias tonalidades, por exemplo a ópera o Elixir do Amor, de Donizetti, composta em duas semanas, uma para a música, outra para o libreto. A correspondência amorosa dos amantes Abelardo e Heloísa é paradigma do epistolográfico de quem ama e do seu contrário, caso de Soror Mariana Alcoforado autora de cinco desesperadas cartas ao Senhor de Chantilly, oficial francês estacionado em Beja no decurso da guerra da Restauração, ocupando o tempo livre a namorar a freira do Convento de Nossa Senhora da Conceição. As cartas de Mariana Alcoforado têm merecido a atenção de estudiosos da literatura de todo o Mundo, sendo consideradas como expoente da explanação atormentada da expiação do pecado de amar.
A natureza deste texto é fragmentária, não só pela desmesura do tema, também porque não é possível abarcar ou nomear as principais, só as principais criações dedicadas à pulsão amatória, ou seja da Arte de Amar, recordando o clássico livro de Ovídio, ou o bem mais recente A Arte de Amar, do poeta e crítico literário português David Mourão-Ferreira, falecido em 1996.
Esqueço, tenho de esquecer Beatriz Portinari a bela jovem musa de Dante sua inspiradora na criação da genial Divina Comédia, procedo da mesma forma relativamente à construção de Shakespeare intitulada Romeu e Julieta, ao longo dó de peito de Madame Butterfly enquanto lastima o seu desafortunado destino ao ver o lento afastamento do navio onde vai o marinheiro a quem concedeu tudo, o corpo e a alma, esqueço Eu quero amar, amar perdidamente… poema intenso de Florbela Espanca, também esqueço os poemas de Manuel Bandeira nos quais o amor é referência maior, mas não esqueço o nosso poeta maior – Luís de Camões – ele mesmo atingido no coração ao obrigar-se a acatar A Força do Destino (Verdi) em o proibir de amar. Na sua obra, o amor é exaltado de modo veemente, não por acaso em Os Lusíadas, oferece-nos a dádiva da Ilha dos Amores, não esquecendo o romance frustrado e sanguinolento de Pedro e Inês, plasmado na Quinta das Lágrimas, nos arredores de Coimbra, que vale bem uma visita – um dos seus restaurantes ostenta uma estrela Michelin e nos jardins do Hotel há motes recordando aquela que não foi rainha em vida, mas foi coroada depois de morta.
Texto original publicado na INTER 257.
*o autor não escreve ao abrigo do acordo ortográfico
