Em 1939, o escritor, bibliófilo e gourmet dotado de imenso saber e experimentado no tocante a sápidos sabores deu à luz a inusitado ensaio relativo às artes culinárias e a iguarias sólidas e líquidas intitulado VOLÚPIA: a Nona Arte: a Gastronomia.

O termo Volúpia segundo os dicionários de referência, sisudos, significa prazeres, deliciosas sensações, deleites sexuais, agradáveis efeitos retirados dos sentidos. Os dicionários jocosos ou de calão pela sua própria natureza conferem ao substantivo feminino significantes luxuriosos de infrene profundidade inventiva capazes de até ruborizarem as faces dos émulos de Drácula. Experimentem verificar.

A associação da comida (e a bebida) ao sexo será tão antiga quanto o homem a mulher, documentalmente logo após a invenção da escrita aparecem referências ao duplo regozijo nas artes da boa consumição de comeres à mesa, sobre ela, no campo, nas camas e em todos os sítios onde der na vontade aos amantes de pratos picantes, condimentados de modo refulgente.

Não vou cair na tentação de aludir a iconografias de todos os géneros nas quais de forma velada ou explícita, a entrelaçada união da comida e do sexo está exuberantemente representada nas obras clássicas do Oriente e do Ocidente. Se dúvidas existirem leia-se o Cântico dos Cânticos, E sob a língua leite e mel.

No púdico intento de melhor ilustrar o escrito no parágrafo anterior convido os leitores a contemplarem os recatados quadros de Manet, Olímpia e Almoço no campo, embora este último tenha enfurecido criaturas sensíveis e puritanas ao ponto de nunca terem vislumbrado o seu próprio em toda a sua extensão, frente e detrás.

Parece-me desapropriado aludir a cozinha canibal, apesar de algumas receitas conterem eflúvios de viscosas e doces lambiscos.

Sem dúvida alguma que numerosos receituários de cozinha erótica se caracterizam por a composição dos sortilégios culinários implicarem custos elevados a trazerem à lembrança as receitas dos sibaritas romanos, algumas compiladas no célebre tratado culinário de Apício, De Re Coquinaria.

O refinado Apício regista: almôndegas de vulvas de porca, tetas e vulvas de porca, assadas, porém está longe das excentricidades de Calígula e Heliogábalo cruéis imperadores, mesmo dos relatos gastronómicos vindos a lume no clássico Satíricon, de Petrónio.

Dando um salto de dois milénios recorro a uma distinta e surrealista senhora – Gala de seu nome, amante, mulher e tutora de Salvador Dali – na intenção de realçar quão fértil é imaginação no tocante a representação excêntrica no conúbio entre a comida e o sexo. A Musa de Dali no ser livro Receitas de Gala, alude a pratos intermediários sodomizados, e o extravagante Marinetti, em A Cozinha Futurista menciona receitas conducentes a fantasias construídas nos fogões e apreciadas sobre coxins ao estilo asiático antigo, não quero ferir sentimentos. Anotem: Paixão das Loiras, Todas as Curvas do Mundo e seus Segredos, Te desejo.

A monstruosidade do tema e a carência de espaço leva-me à impotência de o tratar de modo minimamente conveniente, o leitor perdoará as faltas, procuro torná-las mais leves lembrando obras de relevo caso de Tratado do Requinte, ou Cinco Mil Anos de Cozinha Afrodisíaca, em boa tradução do falecido gastrófilo José Labaredas.

Uma Mulher do Mundo legou-nos um estimulante receituário em italiano La Cocina Impudica, a mundana senhora anotou fórmulas culinárias cozinhadas nas casas de apoio a homens carentes de afagos femininos, sendo notório o propósito de tais composições conferirem amplitude aos amplexos dentro do espírito de comer e amar até à exaustão.

Exaustos estarão os olhos leitores desta vacilante crónica, não onanista desejo sim motivadora de outras leituras até porque os prazeres de alcova serão sempre imperfeitos se minguados de comeres. Ao menos um copo de vinho, uma taça de chocolate, uma chávena de café de Moca!

Texto original publicado na INTER 253.

*o autor não escreve ao abrigo do acordo ortográfico