O teatro nasceu na Grécia há mais de 2500 anos. A farsa é um dos vários géneros teatrais. Segundo reputados especialistas, a farsa é o contrário do drama, como a comédia é a antítese da tragédia. Para exemplificar a real profundidade dos contrários, o espectador sofre ante a tragédia e diverte-se a apreciar a comédia. Ou seja: o fundamental é o efeito produzido no espectador.

Na comédia o mais importante não é o riso que suscita, sim a «ânima», interioridade que ela contém que provoca o riso. Tal interioridade obriga as personagens a serem ridículas, a obrigarem-nas a rir de si próprias ou, não sendo ridículas, riem disto ou daquilo, levando-nos a rir com elas. Na comédia grega, berço matricial, o comediógrafo de maior renome, Aristófanes, recheia as suas peças de produtos, de comida, cujas principais personagens não sendo ridículas nos levam a rir de tudo, acidamente de todos. E de tudo quanto há ou é de mais sério.

Na farsa as personagens, sendo ridículas, são de tal forma risíveis que mesmo infelizes, desgraçadas, tristes, não provocam pena; é que as personagens farsantes confundem (misturam) o seu ridículo com o ridículo do pretendido ridicularizar. A farsa é ingente à nossa própria existência. Temos receio de cair em situações ridículas, de provocar o riso contido ou desbragado nos outros, de cair em fraqueza de qualquer teor pelo medo de sermos possuídos por muitos pavores, o medo da morte. A vida está imbuída, impregnada de situações ridículas, apesar do temor e tremor em tropeçar ou sermos apanhados em tais transes, somos, por isso rimos, rimos de nós próprios.

Sendo a farsa uma tremenda evidência, não podemos alardear surpresa ao enlaçarmos a inúmeros actos culturais de conceber comida, de a servirmos, de a comermos na perspectiva da sua vital importância à nossa sobrevivência, isto num primeiro plano. Num segundo, a fim de a saborearmos, a desfrutarmos, a classificarmos de modo a percebermos a sua essência e possíveis disfarces (ridículos ou não) no propósito de conceder felicidade na plena expressão dos cinco sentidos, acrescidos daqueles que nos acrescentarem júbilo a perdurar na nossa memória.

Seria farsa estulta estabelecer o quadro das farsas cujo «miolo» primacial seja a comida, no entanto, parece-me oportuno lembrar as Farsas cujo autor é o criador do teatro português – nem mais, nem menos, Gil Vicente, também conhecido por Mestre Gil. Acerca da vida do genial autor perduram incertezas e enigmas, seja no tocante à naturalidade, seja no referente ao ano do nascimento. O grande criador teatral que, no fim da sua vida, pretendeu proceder à compilação completa das suas obras, já não conseguiu cumprir o projectado, que veio a ser concluído mercê da dedicação dos seus filhos Luís e Paula Vicente, sendo impressa em Lisboa no ano de 1562.

A linguagem de Gil Vicente é crua, podendo-se afirmar ser a usada pelo povo naquele tempo de transição da Idade Média para a Idade Moderna. O grande autor é um cortesão, escreve cru porque sabe quão apreciado é o seu estilo, alia à beleza poética e à intensidade dramática a alegria contagiante e a corrosiva crítica, onde o Mundo e os homens são mostrados e retratados nas virtudes e defeitos. O seu teatro dual – religioso e profano –, assente na tríade da sua lavra – comédias, farsas e moralidades –, é representado na corte, pois é a corte que lhe encomenda as peças comemorativas de nascimentos, casamentos e cerimónias de índole religiosa.

O seu teatro está ensopado e recheado de alusões a terras, a produtos e comeres, também às evacuações forçadas ou inesperadas porque o glutão comeu em demasia, a moça mastigou cousas estragadas e/ou as mulheres e os homens beberam demasiado.

Aduzo alguns exemplos:

Sobes Rio-Frio, e toda aquela serra

Aldeia Galega, a Landeira, a Barquinha

E de Lavra a Coruche? Tudo é terra minha.

E desde Samora a até Salvaterra.

E desde Almeirim à Ribeira.

In. Auto da História de Deus

 

E São Pedro no Barreiro,

E São Paulo em Alcochete.

E São Francisco em Alegrete

E Santo Espírito em Pombeiro.

E são Fernando em Punhete.

In. Vilão do Templo de Apolo

 

Onde está o seu hortelão?

Os cheiros não estão apanhados?

In. Farsa do Velho da Horta

 

Varre e deixa o lixo em casa,

Come e deixa ali o bacio;

Cada dia a espanca o tio,

Nega porque é tão devassa.

Manuela mata a brasa.

Não cures mais manteiga.

In. Auto Pastoril da Serra da Estrela

A enunciação, acima referida, permite aquilatarmos sobre qual seria o quotidiano alimentar das gentes de tempos tão recuados, se ousarmos idealizar sobre a realidade dessa época no que tange à conservação e transformação de produtos em alimentos, temos à nossa disposição matéria-prima suficiente para estabelecer o quadro de referências de modo competente.

A rede de comunicações deficiente e insegura frequentada regularmente apenas por almocreves, recoveiros, bufarinheiros e salteadores, a precaridade sazonal dos produtos, a ausência de instalações capazes e higienizadas, a limitada existência de conservantes (o sal era estratégico), a prevalência do sujo sobre o limpo, obrigavam à constante recorrência ao disfarce, quando o mesmo extravasava a regra do “com conta, peso e medida”, a comida ascendia à condição de farsa cujos farsantes tanto podiam ser ingénuos, como repelentes mixordeiros.

O escabeche, a maionese, a mostarda, a marinada e tantos outros condimentos em líquidos, molhos, pasta ou em pá, são fundamentais na elaboração de disfarces cuja ambivalência é enorme e apresentada num rol de milhares de figurações durante séculos escondido dos não residentes, agora ao alcance de uma mão treinada a teclar no computador.

Não, por acaso, o anexim – cada roca com seu fuso, cada terra com seu uso – ganhava acuidade no guardar o segredo de adequado tratamento das carnes na salgadeira, da certeira fumagem dos enchidos, da boa curtimenta das azeitonas, da dosagem no ponto da quantidade de aguardente a colocar nas malgas e/ou tigelas contendo marmelada a fim de esta doçura não adquirir mofo e azedume.

A sageza do cozinheiro leva ao perfeito engano o gourmet quando lhe apresenta lagosta fingida e este, após ter sopesado a iguaria, afirma nunca ter comido lagosta tão grácil, tão gostosa, a sua desastrada intervenção no preparar bifes de cabeça chata dá azo a agres comentários dos donos de palatos adestrados na diferenciação de iscas temperadas com aguardente velha ou bagaço novo. Do disfarce à farsa, a distância é ténue, assim ao modo de também nos convertermos em personagens ridículas.

Texto original publicado na INTER 256.

*o autor não escreve ao abrigo do acordo ortográfico