“Não se pode fazer uma boa política com uma má cozinha.”

Talleyrand, (1754-1838)

O famoso diplomata francês Charles Maurice Talleyrand-Périgord, 1754-1838, será sempre recordado como o negociador político capaz de se manter na crista da onda de sucessivos governos, escorado no seu prodigioso talento expresso na arte de bem receber consumada em refulgentes e demorados banquetes, associando receitas de alto desempenho culinário a voluptuosos vinhos.

O versátil embaixador, antes de ir participar nos trabalhos do importante Congresso de Viena, disse a Luís XVIII que, em vez de instruções, necessitava de caçarolas. Ele teve o engenho de assegurar o concurso de talentoso cozinheiro e não menos pasteleiro, os dois preciosos colaboradores garantiram-lhe réditos enormes simpatias nas intrincalhadas operações de vencer os adversários, conseguindo salientes vantagens para a França. Hoje, é nome costumeiro nos bons receituários de cozinha internacional, dadas as suas composições culinárias e não devido ao facto de ter tido a argúcia de convencer os opositores afagando-lhe o palato e agasalhando-lhe os estômagos.

A escassez de espaço impede-me de dedicar maior atenção ao autor do renomado molho Talleyrand porque, no referente à exaltação do poder recorrendo à comida, os exemplos de substancioso ardil são, pelo menos, milhões sobre milhões, desde os primórdios do Homem, mesmo antes de saber criar e dominar o fogo.

Na Antiguidade o maior banquete de exaltação do poder terá sido o oferecido por Assurbanipal II, 690-627, rei da Assíria, quando inaugurou o Palácio de Todas as Habilidades. O ágape durou dez dias. Os 79.574 convidados, em ambiente de hossanas e louvores ao generoso monarca, só no que tange a carnes, comeram-se 1000 bois gordos, 1000 carneiros e cordeiros de estábulo, 14.000 cabritos, 200 bois de estábulos da Senhora de Ishar, 1000 cordeiros alimentados que não foi decifrado nas tabuinhas de cerâmica, 1000 cordeiros de Primavera, 500 cervos, 500 antílopes, 1000 patos grandes, 500 garças, 1500 patas domésticas, 1000 codornizes, 10.000 tordos, 10.000 galinholas, 10.000 passarinhos e 10.000 jerbos (roedores das estepes do tamanho de ratas). Atente-se na especificação da sazonalidade de alguns animais, assim como da sua alimentação e instalação. Tão bons exemplos nem sempre são seguidos!

No fito de satisfazer a natural curiosidade dos leitores no tocante a bebidas, na demorada libação beberam-se, além da água, 10.000 jarras de cerveja e 10.000 odres de vinho.

Os livros sagrados também nos ensinam relativamente à união do poder à comida e à bebida. Na Bíblia, Velho Testamento, relata-se o episódio em que Esaú (o que tinha pêlos na língua) vendeu a primogenitura a troco de um prato de lentilhas. Saciado, tentou recuperar o poder de ser o primeiro, o irmão Jacob não acedeu a tal pretensão e sequelas do conflito resultante do afã pelo poder continuam a inflamar argumentos e presunções. Por um prato de lentilhas!

 

Texto original publicado na INTER 255.

*o autor não escreve ao abrigo do acordo ortográfico