O cocktail está na moda. As suas cores e decorações fazem com que seja um dos alvos mais apetecidos pelos paparazzis de Instagram. O bartender é o novo ator da gastronomia, que agradece que a sua gota de arte tenha ficado imortalizada naquela foto.

E como é que tudo isto nasce? O que torna esta harmonização de sabores e texturas ser a certa? Por que é que tem um nome e uma história? E está tudo ligado? UAU! O efeito UAU!, o objetivo a atingir para quem cria arte. Então e como é que isso se faz? Não há nenhuma fórmula matemática que faça de nós Midas e que nos permita tornar tudo aquilo em que tocamos em algo precioso.

Há imensos fatores que podem despertar em nós um rasgo de inspiração. Um deles, e que nasce de algo tão genuíno como a ignorância, chama-se inexperiência. Procuramos demasiadas vezes o complexo e o diferente, o ‘outside the box’ no tradicional. Para tal, estudamos e estudamos, mas nunca conseguimos escapar daquilo que já vimos e sabemos. E é neste momento que a ignorância pode entrar em jogo com a força de um trunfo.

Não te cinjas a partilhar a tua criação somente com o teu colega de bar. E que tal pedires opinião à tua mãe, que trabalha com roupa há mais de 20 anos ou ao teu amigo que escreve sobre ciclismo? Que achas que eles te vão dizer acerca do teu cocktail? De certeza que não vão mencionar a delicadeza do rum nem a complexidade do ‘bitter’. As suas experiências de vida são totalmente opostas à tua e ainda trazem consigo a sabedoria e o palato do povo que é leigo em relação à gastronomia.

Devíamos ouvir mais vezes a voz de quem não sabe. De quem quer o nosso bem e nos quer ajudar, mas que sem saber como, apenas dispara contra nós críticas dadas pelo coração. Eles vão ver coisas que nós não vemos devido à nossa avaliação já ter um formulário uniforme desenhado por nós e desenvolvido por quem está na mesma área.

Eles vão utilizar o “porquê” para aquilo que para nós é óbvio, tal como uma criança de quatro anos usa o “porquê” quando se veste sozinha pela primeira vez e o pai lhe diz que as cores não combinam. Esta singela ignorância pode-nos abrir as portas para o complexo, o diferente, o ‘outside the box’ no tradicional.

A nós, só nos resta escutar com atenção, para que possamos começar a criticar aquilo que não criticávamos antes só porque sempre foi assim. Porque é assim que vem nos livros que lemos mas que eles não leram. E assim pode nascer a inovação, não da genialidade mas da ignorância. Porque a inspiração está nos olhos de quem a vê, não só nas mãos que quem a faz.

Não te limites a criar, cria inspiração.