Em tempos, Krishna, uma das divindades indianas, pregava: “é a luxúria, nascida da paixão, que se transforma em ira quando insatisfeita. A luxúria é insaciável, e é um grande demónio”. Um pecado que abre a porta para tantos outros. Tenho a certeza! Não há elemento na cozinha mais libertino e com mais histórias que este. Foi, durante séculos – e em parte ainda é, – moeda de troca, símbolo de poder, de prazer e de escravatura. Falo do chocolate, claro!

Com algumas viagens “na mochila”, mais as que ainda vou fazendo procurando novidades culinárias, chego lentamente à conclusão que por mais que o pasteleiro se esforce para criar o éclair perfeito, ou o melhor pastel de nata do mundo, não há nada que substitua o prazer de comer um quadradinho de chocolate. O suave derreter na língua, o aroma e o doce que se apoderam de todas as nossas papilas gustativas explodem de prazer e satisfação na boca de quem o come.

A expansão do chocolate foi incrível. Penso que, hoje em dia, não se valoriza o chocolate como há 800 ou 1000 anos. Hoje é visto como um “mimo” e, antigamente, o chocolate sentava-se à mesa com reis, participava em sacrifícios humanos e fazia parte de decisões importantes. É impressionante o seu percurso até aos dias de hoje e a forma como o encontramos agora, sempre disponível, de todas as maneiras e feitios, carregados de açúcar. Tenho pena de já não se poder saborear o chocolate que preparavam os Aztecas: um aroma forte, de especiarias, com corpo, servido frio ou quente, e em momentos especiais.

Hoje “brinca-se” com chocolate, fazem-se esculturas, bombons, sobremesas complicadas e gelados deliciosos. Além disso tudo, também se desperdiça, e bastante!

O chocolate tem as suas histórias de amor, mas, infelizmente, ainda faz correr muito sangue, como se de um diamante se tratasse. O mundo da produção de chocolate é ainda muito sujo e a informação que nos chega nem é muito clara, nem abundante. Sabemos que algum vem da Costa do Marfim ou da América Central. Dizem-nos que não há escravatura, nem exploração infantil, mas nem tudo é um mar de rosas. A maior parte dos trabalhadores destas plantações não conhece o sabor de uma barra de chocolate ou sequer sabe o que fazemos com aquilo. Para eles, sabe mal que se farta!
Vi, há uns tempos, um documentário que mostrava um desses indivíduos a provar um pedaço de uma barra de chocolate. Incrível o seu olhar de espanto e satisfação! Pôs-me a sorrir. Depois, triste ficou ao saber que o preço de uma barra daquelas era o equivalente a seis meses de trabalho. O chocolate tem mesmo de ser levado mais a sério!

Pelas ruas de Londres apercebo-me que não há sítio nenhum que não venda chocolates e 80% estão longe de serem chocolates bons e de qualidade. 
Está na hora de nos tornarmos mais exigentes no palato…antes que o chocolate acabe!

*a autora não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico