Tenho ideia que esta meia dúzia de anos que nos separa, era maior há uns 20 anos quando o conheci. Teria Vítor Sobral 10 anos de cozinha e era evidente como personificava o despontar de uma nova geração de cozinheiros à procura de quebrar barreiras. Reconheça-se a muita força a trabalhar a gastronomia em Portugal, a todos os níveis. Sempre tivemos glórias da tradição e quem amanhasse a terra ou rendilhasse o mar para nos dar a fonte inesgotável de portugalidade oferecida à mesa.
Entre os nomes contemporâneos de Sobral estão Fausto Airoldi, Helmut Ziebell ou François Croiset, Orlando Esteves e Miguel Castro e Silva. Mais tarde surgiram outros, ainda assim foi ele o primeiro cozinheiro do nova vaga a afunilar exclusivamente na causa portuguesa. Pegava nas receitas portuguesas e trabalhava sobre as mesmas. Novas técnicas e apresentações numa nova vida para a tradição. Quando não estava na moda, quando não se esperava que alguma vez estivesse. Foi o primeiro chefe de cozinha a ter o trabalho de uma agência de comunicação, a começar com cursos regulares de cozinha, a ganhar o estatuto de figura pública. Teve os seus sucessos, insucessos, glórias, invejas, apreciações e o contrário. Foi o primeiro chefe de quem fiquei amigo. Entrevistei-o por tudo e por nada na cozinha da Miele, fiz cursos, comi em todos os seus restaurantes mesmo depois de nos afastarmos. Um dia, tinha passado muito tempo, voltámos ao contacto. Não é hoje igual porque nada é igual.
Naquele tempo, havia meia dúzia de revistas profissionais da área da restauração que abarcavam a temática da gastronomia e apenas o Duarte Calvão fazia, no Diário de Notícias, o que chamaríamos de jornalismo gastronómico. O Expresso e o Correio da Manhã tinham as suas críticas e mais tarde o Público. A comunicação era escassa e portanto qualquer artigo se ampliava por sms enviado a uma rede de amigos próximos. A presença da gastronomia na comunicação social para o grande público era tão pouca que era possível acompanhar o que se dizia ou escrevia sobre o chefes e restaurantes.
Nos dias de hoje é o que se vê. Há muita comunicação social, jornalismo, revistas com a temática da gastronomia. Muitos chefes que se apresentam claros e tantas plataformas de partilha que tudo está melhor e mais fácil, claro e natural. Falta, no entanto, ‘Sobralismo’ ao ambiente. Falta controvérsia, falar alto, discordar. Agigantar-se um feito, numa época em que se valoriza pouco o feito alheio. Vive-se em demasiada conformidade, há muita existência, co-existência, repetição, originalidade e falta dela. Um sistema com muitos subsistemas. Não é a teoria da conspiração mas sim o mercado a funcionar. A riqueza da gastronomia e a força do negócio da restauração estão a jogar outro jogo. Quebram-se mais barreiras, constroem-se novas realidades. Tudo isto entre nós, pessoas. Hoje uma delas faz 50 anos com 30 disto. Parabéns Vítor.
ESPECIAL VÍTOR SOBRAL. SAIBA MAIS:
