A terra torna-se húmida, as águas entumecidas galgam as margens dos rios, o vento vergasta as árvores, a chuva fustiga-as, o ar fica sombrio, o horizonte desprende brancura reluzente do nevão cobertor da montanha.

Dizem os donos de provecta idade ser o inverno tempo de vida airada. O rifão adverte: Em dezembro descansa, mas não durmas. O mês da Natividade é o pináculo da estação onde os quatro elementos – terra, água, ar, fogo – convergem, concedendo dias de ripanço aos agricultores e pastores de outrora. Apesar das convergências paridas pelo progresso técnico, o inverno ainda tem duas faces: a rural e a urbana.

Na rural, nas aldeias quase despovoadas, o conforto de quem tanto trabalhou revela-se: na tulha, pão em cereal; na salgadeira, o bem tratado porco; no pote, escondidos no pingo, os rojões entumecidos; na adega, pipos com vinho novo, frutas secas, leguminosas, cabos de cebolas e alhos. O fumeiro, enfiado em varas colocadas no céu das lareiras, ganha um brilho absorvente ao receber o calor das labaredas que o iluminam.

A chuva persistente, triste, acicata a vontade de tirar a barriga de misérias, de enterrar os dentes em carniça, mesmo não sendo dia de nomeado ou de festa. E não há prazer onde não há de comer. E, por isso, de dentro, o alvoroço jubiloso, do festim sonhado transformar-se em realidade. Milagre do inverno. Eis uma amostra.

Desce a mesa escorada no escano; toalha de linho, vetusta, sobre ela redondo pão a partilhar, caneca cheia de vinho até aos gorgomilos, copos grossos de vidro para o receber, o prato grande, fundo de onde todos tiravam as pitanças recebe agora alcaparras, rodelas de linguiça e salpicão cuja assisada assadura lhe realça a sapidez e filamentos de rojões.

Desce a mesa escorada no escano; toalha de linho, vetusta, sobre ela redondo pão a partilhar, caneca cheia de vinho até aos gorgomilos, copos grossos de vidro para o receber, o prato grande, fundo de onde todos tiravam as pitanças recebe agora alcaparras, rodelas de linguiça e salpicão cuja assisada assadura lhe realça a sapidez e filamentos de rojões.

Caldo, um caldo taludo, recebe abóbora, batata, feijão seco, couve, chouriço, presunto (velho se ainda o houver) e toucinho. Sobe o dia, sobe o prazer, vem o segundo comer, só para provar: alheiras assadas com grelos de nabo. E o terceiro comer é hossana ao porco, na forma de cozido, onde o estimado marrancho é apreciado das orelhas ao rabo, passando pelo focinho, a carne do peito, a bocheira, a chouriça de carne, a chouriça de sangue, o salpicão, os pés, como adorno vários vegetais dispensáveis, mas não se dispensa as fatias de pão de trigo ou centeio. Quebrado o intervalo sonolento, coroa-se o festim saboreando-se uma filhó ou arroz-doce feito com ovos e leite.

Na face urbana, os longos dias invernais não são pautados pela ordem astronómica, obedecem ao rigor audível das televisões, a luz da estação mal se vislumbra, o receituário de comeres obedece a tripla uniformidade: a comida rápida, o multiculturalismo, a volatilidade da efémera moda. O longe, antigo, perdeu-se num mar coalhado de amostras comestíveis ditas tradicionais às vezes são-no: podem apreciar perdizes, que não as charrelas, mesmo à maneira do Convento de Alcântara (qual deles?), lebres, os ora plebeus javalis e faisões também despromovidos socialmente. Já as disputadíssimas galinholas, as quase inexistentes narcejas, são cousa para os sortudos caçadores e os afortunados amigos.

Tempo de neve, de chuva, caídas, de ventos abstrusos, fatigantes, de frios gélidos, cortantes, de luzes escuras, douradas, violáceas, rutilantes, representações da luz natural que nos alumiava.

É o inverno.