Quem acompanha o meu trabalho percebe imediatamente a importância que dou ao aspeto visual do cocktail, como parte envolvente da história ou conceito do mesmo. Engane-se quem pensa que me desleixo na parte líquida, pois é essa que me rouba sempre horas e horas de sono, entre pesquisas e tentativas falhadas. Os erros levam-me ao aperfeiçoamento do sabor final, que considero ser a principal razão para uma bebida voltar a ser pedida. Então, qual a justificação para eu e tantos outros colegas bartenders, à volta do mundo, apostarmos tanto na parte estética do cocktail? É o novo paradigma do boca-a-boca.

O estudo sobre memória e aprendizagem, através da utilização de palavras ou imagens, não mostra que um meio seja superior a outro. Mas na comunicação oral, a resposta de quem ouve através de palavras, recorrendo ao mesmo tempo à utilização de imagens, cria em si uma capacidade maior de diferenciação e uma compreensão mais exata (Dominowski & Gadlin, 1968). Adicionemos a esta equação, o facto de o nosso público ser constituído por pessoas adultas e que nós, seres humanos, respondemos melhor a imagens à medida que nos vamos tornando mais velhos e ricos em experiências (Cherry et al., 2008).

E qual será o novo ator deste fenómeno? O telemóvel, claro. Hoje em dia, a grande maioria dos clientes que visita os nossos bares tem como peça de roupa indispensável o seu telemóvel, e tende a fotografar tudo o que lhe desperta a atenção, seja por ser bom, mau ou diferente. Esta realidade alterou o paradigma da tão popular comunicação boca-a-boca, onde as fotografias pintam as nossas palavras e dão forma aos sentimentos que queremos transmitir. Seja numa conversa que inclui as imagens que estão no nosso diário de bolso, ou através dos nossos álbuns de memórias online, aos quais chamamos de Instagram ou Facebook.

Pensa comigo… Quando foi a última vez que disseste a alguém: “Estive no bar x e bebi algo espetacular que era uma combinação de a+b, servido no copo y”? Agora diz-me, quando foi a última vez que disseste a alguém: “Ontem estive no bar x e bebi isto, olha só”? E acabas por sacar do bolso o teu telemóvel para expressares as tais mais de 1000 palavras que uma foto vale.

Não estou aqui a querer lançar uma crítica ao estilo clássico da nossa profissão, ao qual tanto devemos. Muito menos a querer desvalorizar quem o pratica e protege. A simplicidade das nossas origens mostra-me, muitas vezes, que menos pode ser mais. Que a elegância de um copo despido de vaidades tende a provocar o palato e o líquido a dançar mais intensamente. Além de educar o cliente na complexidade do sabor e na chave que é o seu equilibro. Por outro lado, também sei que a maioria das pessoas que visitam os nossos espaços quer o todo! Querem o copo “fixe” que contém a bebida “uau”, juntamente com o serviço “brutal”. E, afinal, esta é a orgia de sensações que devemos procurar entregar como agradecimento a quem nos dedicou o seu tempo, a sua atenção e o seu dinheiro. E o que vai acontecer no pico deste climax gastronómico? Uma foto para o mundo, uma memória no coração e um “até já” na despedida.

E este é um “até já” que promete um espalhar de mensagem, que garante que a pessoa vai recomendar a nossa casa e vai voltar. E como é que achas que ela vai partilhar com os amigos o que acabou de experienciar? Nos tais álbuns online e neste novo boca-a-boca, numa conversa de café com palavras embrulhadas por fotografias que tirou.

Esta é a nova forma de falar, com imagens, que rapidamente saltam do bolso e são partilhadas com quem nos rodeia e segue. Volto a referir para os mais distraídos, que o visual das nossas criações nunca, mas nunca pode ser o mais importante. Não podemos educar os nossos clientes nesse sentido, mas também não podemos ignorar o mundo que nos rodeia. E se queremos que o nosso bar e o nosso trabalho cheguem a cada vez mais pessoas, a incorporação do “copo fixe” como casulo do nosso cocktail “uau” é uma arma a nosso favor e que não devemos ignorar.

Não te limites a criar, inspira.