Após meses de confinamento e tentativas de conexão com o máximo de pessoas do setor em desespero por boas notícias e novos caminhos para uma indústria — ainda hoje cheia de incertezas e dificuldades financeiras e obviamente de liquidez para poder fazer face aos desafios atuais — a verdade é que continuamos à espera de novas fontes de inspiração, isto para não dizer que a sociedade continua à deriva.

O Covid-19 ainda está para durar até que se navegue e atravesse esta neblina de incertezas, para regressarmos à tão desejada normalidade. Na verdade, os consumidores e os empresários continuam nervosos e a tentar sobreviver. Os hábitos de consumo sofreram alterações, muitas das atividades ficaram afetadas e algumas começam agora a ficar pelo caminho levando pessoas ao desemprego. Há talento que ficará em pausa até ao dia em que os sistemas sociais consigam suportar.

O ser humano ficou vulnerável e é preciso rapidamente descentralizar o poder. As poucas plataformas existentes a lidar com a parte governamental são insuficientes e só levam uma versão da realidade para discutir em cima da mesa, servindo os interesses dos que estão mais próximos. E então quem representa toda uma outra parte da hospitalidade que é servida através do espetáculo e da representação para que o comboio dos mais necessitados possa continuar a circular? Porque é destes que o mundo real precisa, são estes que todos os dias se levantam para servir os que têm dinheiro para gastar, que neste caso se o deixam de fazer também afetam quem tem dinheiro para gastar.

A crise económica é real, as necessidades de sobrevivência no dia-a-dia são reais. Que incentivos reais já chegaram ao setor? Grande parte do que o governo fez, e muito bem pois não seria de esperar outra coisa dos governos, foi aliviar e adiar compromissos financeiros, mas isto será insuficiente se os apoios não chegarem rapidamente ao setor pois a sua liquidez já afetada será o seu enterro.

O lado positivo é que também nasceram novas oportunidades de negócio e muitos bons exemplos têm estado a surgir, como a procura pelo mais saudável, que tem levado os consumidores cada vez mais a procurar o local. Os fornecedores locais começaram a ter visibilidade e reconhecimento e uma nova forma de sustentabilidade local. As relações com o local ganharam e ficaram mais próximas e isso trouxe uma nova alegria ao consumo. Baseado no tempo que todos tivemos durante esta pausa, há que reconhecer que este foi vital para consolidarmos relações que estavam por um fio por acharmos que pelo facto de estarem perto, estariam sempre lá.

Por isso temos de aproveitar este tempo. Apesar de estarmos a caminhar com muitos cuidados e receios, este tempo trouxe uma nova perspetiva de valor. Sofremos perdas financeiras e continuamos com muitas incertezas levando a uma preocupação reativa que é segurar o que ainda podemos e consumir o que é essencial. O essencial são os vegetais, o pão, a comida de conforto, os pastéis, os panados, e tantas outras iguarias da nossa gastronomia portuguesa. Mas depois e o bairrismo? E a alegria de poder tomar um café ao sair de casa? O essencial é a preocupação com o próximo, é valorizar a sua existência. Os negócios vingam se as pessoas vingarem. Os novos conceitos têm uma oportunidade de ressurgir, caso das padarias, das leitarias, das tabernas, das tascas, dos restaurantes de comida portuguesa, das mercearias, das queijarias, do vinho da pipa, dos petiscos. E porque não apostar nestes conceitos com entrega em casa, no bairro ou até mesmo em room service? As equipes estão lá para servir.

Chegámos à era da experiência após uma recente era da informação que penso ter chegado ao fim do seu ciclo. Há uma nova maturidade digital onde as experiências vão ser a nova gastronomia. Prever o futuro é difícil e não há gurus suficientes para dar respostas sobre o que vai acontecer, mas sim uma globalização a trabalhar para a inclusão. Ninguém deve e pode deixar ninguém para trás, temos de todos alimentar todos. A melhor maneira de poder compreender o futuro é juntar e ouvir todas as vozes do presente até porque o momento é de sobreviver e não de lucros

Sim, vamos ter um futuro. Mas devemos estar atentos ao nosso passado.

Talvez esta seja a hora de começarmos de novo.

Talvez desta vez, o foco seja outro. Talvez a sustentabilidade ambiental, a emocional e a do negócio seja o caminho para todos.