E se a doçaria portuguesa for só ovos, açúcar e farinha? Eu ainda acho fascinante que assim seja! Que, com tão pouco, se consiga tanto! Bom, mas voltando lá atrás…
O Pão-de-ló, é, na verdade, ovos, açúcar, farinha, assim como uma Genoise! Ovos, açúcar e farinha! Ao contrário do que o Sr. Giles Coren pensa, temos mais variedade de Pão-de-ló do que toda as “genoises” juntas.
E a Sericaia? Os alentejanos andam há séculos a fazer souflés sem saber! Talvez não tenha o mesmo acabamento de um chefe francês em Paris, mas é, sem dúvida, um finalizado carregado de orgulho e canela. Se a nossa visão de doçaria portuguesa for além dos “ovos, açúcar, etc” e estiver mais atenta à técnica, acho que nos surpreenderemos com as semelhanças que existem entre nós.
O pastel de nata, massa folhada esticada numa pequena forma de metal recheada com um creme de leite, tem uma confecção muito semelhante ao processo usado para esticar o sfogliatelle, um bolo folhado italiano recheado com ricota, açúcar, laranja cristalizada e canela em pó. Os discos de massa são esticados nas mãos em formato de cone. É depois recheado e posto num tabuleiro para cozer, criando pequenas bolsas de massa que, depois de folhada, são camadas de estimulação ao pasteleiro mais fanático. E, claro, o creme da nata põe os britânicos a salivar só de lhe sentir o cheiro! Em Inglaterra todos sabem que quem reina é o “Pudding” e de pudins percebemos nós ou não? Suspiros/meringues, maçapão/marzipan, queijadas/cheesecakes, pinhoadas/nougats, farófias/ile flottantes, queques/cupcakes, entre outros.
Na verdade, o que nos distingue das outras pastelarias a nível global são mesmo os ovos, o açúcar e o romance. É impressionante que com a alteração de temperatura e método se consegue fazer tanta coisa diferente! Quantos pontos de açúcar criaram as nossas queridas avós com todos aqueles nomes encantadores, só para poder fazer fios de ovos e deliciosos rebuçados de ovo de Portalegre? Pudins! Creme de ovos para os folhados e para as Bolas de Berlim! Bem vistas as coisas, estamos é muito à frente desta malta toda, porque para nós o ovo veio primeiro que a galinha. Assim como o Bartolomeu Dias disse adeus ao Adamastor à procura do mundo novo, temos de ultrapassar este medo de enfrentar as avós, dobrar as pérolas e as espadanas, tirar o azimute pelos centígrados e abrir a rota da doçaria portuguesa ao mundo.
Texto original publicado na INTER 253.
