O inverno despede-se, trôpego, deixa os rios grossos, os lagos cheios, os campos gretados e ressequidos, as árvores despidas, no seu redor colchões de folhas mortas. Ao bater com a porta, o inverno resmunga, exclama: até à próxima!
E, todos os anos pela primavera, voltamos a “ver primeiro”. A etimologia explica: prima-primeira, veris-ver. Traz o crescendo dos dias, o aumento da luminosidade, a intensidade dos tons aproveitada pelos pássaros para espalharem sonoridades melodiosas, enquanto rodopiam incessantemente construindo e reparando ninhos.
O ar vibrante ressuscita de verde os prados queimados pelos gelos invernais. A escuridão passa a ser menos densa, mais penetrável, os medos do escuro dissipam-se, tal como a eletricidade extirpou os fantasmas.
Os arbustos agitam-se alegres, deliciados, à medida da intensidade dos raios de sol vermelho, impetuoso, jovem e jovial.
A terra abre-se lânguida, ansiosa, recebe sôfrega, as sementes, mães de toda a casta de legumes, de mimos hortícolas, que originam substanciosas pitanças a concederem gostosa e inusitada alegria aos sentidos. Parece-me importante sublinhar, repetir – o elemento essencial da cultura da terra é a semente.
Os montes, os vales, renovam a vestimenta, o revestimento, os animais de carne sensível como são os cabritos e os cordeiros retouçam sem cessar os frescos e tenros pastos que os vão engordar para nosso gáudio palatal, após serem modelarmente cozinhados.
A estação fornece rompante quantidade de primícias comestíveis a confluírem em preparações de exaltante representação culinária revelando o valor nutritivo das matérias-primas, seja dos sápidos e cromáticos vegetais e frutos, seja na opulência suave das carnes, seja na finura dos peixes, especialmente os de água doce.
Nem os empedernidos habitantes das florestas de cimento escapam às vibrações primaveris, tão fortes, tão fundas, tão febris, que o genial Stravinsky as sagrou no ano de 1913. A ‘Sagração da Primavera’ é obra-prima, é património da humanidade.
Tão intenso é, aliás, o apelo da primavera, que mesmo os ensimesmados, os enclausurados sobre si mesmos, os alheados do mundo, não conseguem ficar imunes aos ruídos de rebentações e aos cheiros seivosos, febris, inebriantes, espalhados pelo vento, por todos os ventos, amenos no feitio de brisas, furiosos no rebolão dos vendavais.
As perturbações da primavera molham-nos sem clemência, os trovões atroam e ressoam nos ouvidos, as flores cheias perdem pétalas sopradas no desvario da tempestade passageira, palavras vulgares formulam nas imprecações imagens de espanto, de arrelia. Março marçagão…
Logo surge a bonança a prevenir o atoleiro, onde o pé não deve pousar.
A primavera é uma prodigiosa e fascinante assombração de felicidade. Fulminante!
