O ‘Tuguismo inclui uma dúvida constante e insidiosa sobre a lealdade e honestidade de todas e quaisquer críticas que sejam feitas sobre qualquer assunto, em particular, os vinhos. Se diz bem é porque é amigo ou, pior, lhe pagaram, se diz mal é porque há razões pessoais, perseguição ou, pior, incompetência.

Reciprocamente, o ‘Tuguismo também inclui uma admiração basbaque sobre todas e quaisquer críticas que venham do estrangeiro. Esperem, do Estrangeiro. Normalmente ninguém no Estrangeiro se dá ao trabalho de dizer que o Quinta da Zurrapa é uma pisorga desprezível, por isso, o que dá à costa são elogios, logo tomados e – hoje em dia – replicados como “finalmente a verdade,” alguém que reconhece o meu valor, quer seja uma confirmação do que a tribo dos comentadores portugueses já vem dizendo há anos, quer seja a completa contradição com essas opiniões. Do Estrangeiro vem A Verdade.

[Foi um pouco para tentar quebrar estes vícios que já há muitos anos decidi que a minha intervenção sobre vinhos não se poderia confinar à Lusa Pátria, e, na medida das minhas possibilidades, oportunidades e contatos, procurei manter uma visibilidade internacional, baseada aliás no princípio de que, necessariamente, os críticos portugueses entenderão e conhecerão os vinhos portugueses melhor e mais de perto do que os críticos internacionais.]

Recentemente, a influente revista americana Wine Spectator dedicou a capa e um substancial número de páginas ao vinho português e à gastronomia portuguesa. Logo ferveram os noticiários, públicos e privados, com esta pepita. Há anos que sou correspondente da Wine Spectator em Portugal, escrevo principalmente notícias e faço análise. Mas o mundo do vinho português não gera assim muitas notícias, e as que gera por vezes não têm um interesse globalizável.

O tipo de destaque que uma reportagem destas tem é fundamental para chegar ao consumidor final em muitos sítios do mundo, e para apoiar o intermediário (importador, distribuidor) que tem acesso a eles. Ou seja, para aumentar a visibilidade global e com ela as vendas. Aumentar o ego, a vaidade, ou aproveitar para “mostrar em Portugal como lá fora reconhecem o meu valor” parece-me um desperdício desta visibilidade inesperada, rara, e não possível de repetir com muita frequência.