A curiosidade sobre a temática da história da alimentação sempre foi algo que esteve muito presente. Não foi por isso surpresa quando Guida Cândido – técnica superior do Arquivo Fotográfico Municipal da Figueira da Foz e já autora de livros como ‘A Nossa Mesa: receituário gastronómico da Figueira da Foz’ e ‘Coração, Cabeça e Estômago: uma tertúlia figueirense’ – optou por ter como base esse tema para a sua dissertação de mestrado em Alimentação – Fontes, Cultura e Sociedade, da Universidade de Coimbra. O livro de receitas de D. Catarina de Áustria, mulher de D. João III, datado ao século XVI, foi motivo de investigação e o despertar da obra ‘Cinco Séculos À Mesa’.
O caminho não foi fácil. Para aceder ao manuscrito, guardado na Torre do Tombo, em Lisboa, a autora desdobrou-se em autorizações. A sua ideia inicial, quando folheou o histórico documento, era a de que este pertencia a D. João III. Após uma investigação mais profunda, percebeu que o mesmo era afinal da sua mulher e que refletia, em palavras, algumas memórias de D. Catarina relativas à organização administrativa e doméstica da casa real. “Foi extraordinário fazer essa identificação, cruzei muitos elementos”.
Em ‘Cinco Séculos À Mesa’, a autora deixa de lado a linguagem formal e académica, “casando os mundos da história e gastronomia”. Dividido em duas partes, a obra conta a história da alimentação em Portugal, desde a antiguidade clássica aos tempos modernos e apresenta um conjunto de cinco dezenas de receitas baseadas em cinco livros e, que, segundo a autora, refletem as várias fases da gastronomia e a sua evolução. E isso é notório nas duas primeiras obras que menciona. Da sobremesa Manjar branco do ‘Livro de Cozinha da Infanta D.Maria de Portugal’, feita a partir de farinha de arroz, leite e peito de galinhas, ao aparecimento das especiarias em ‘Arte de Cozinha’, de Domingos Rodrigues, autor do primeiro livro de cozinha impresso em Portugal, em 1680.
A terceira obra é um ponto de viragem, ‘O Cozinheiro Moderno’, de Lucas Rigaud, “um clássico da cozinha portuguesa do século XVIII”, introduz a cozinha europeia no nosso país, e isso é notório nas receitas, que contam com o aumento de ingredientes como manteiga, tomate, peru e chocolate em várias iguarias. No quarto livro, entramos numa época dourada, com dezenas de livros sobre a temática. ‘Cozinheiro dos Cozinheiros’, de Paulo Plantier, no século XIX, surge com a ideia de chegar às donas de casa e conta com contributos de figuras importantes como Luciano Cordeiro, Raimundo Bulhão Pato e Rafael Bordalo Pinheiro. Por fim, não falta ‘O livro de Mestre João Ribeiro’, “um homem importante esquecido por vários”, numa obra póstuma escrita por diversos autores, já do século XX, incluindo José Quitério e Maria de Lourdes Modesto.
Segundo a autora, há uma evolução na alimentação ao longo dos séculos, a nível de utensílios, alimentos e técnicas. Mas isso não quer dizer que hoje tenhamos uma melhor alimentação do que os nossos antepassados. Guida Cândido considera que esta é um ciclo e que muitos ingredientes, agora em voga, já antes se consumiam. Como maior exemplo temos o gengibre que “na casa de D. Catarina, havia aos quilos, assim como a manteiga aromatizada”. O que transcende no tempo é união à mesa. “Antigamente, os banquetes servidos em ocasiões de festa, tinham sempre uma razão social por de trás. Era tudo muito mais do que apenas comida.”
Para o próximo ano, podemos esperar jantares temáticos, em vários pontos do país, com alguns dos pratos que compõem o livro ‘Cinco Séculos À Mesa’, bem como, oficinas com direito a degustação.
Título: Cinco Séculos À Mesa
Autor: Guida Cândido
Editora: Dom Quixote
Páginas: 256
PVP: 24,90€

