‘A verdadeira cozinha americana: história e receitas’, traz o velho tema ao de cima, para além de dividir uma série de receitas norte-americanas pelas várias regiões do país. É o novo livro de M. Margarida Pereira-Müller, sobre a terra dos hambúrgueres e fast-food – afiança a autora serem estas as duas bandeiras fortes da nação americana. Mas será que realmente tudo se resume a estes pratos? Sobre o assunto pouco se sabe, contam-se pelos dedos das mãos as obras que falam sobre o tema, editadas em Portugal.
Na sua investigação, M. Margarida Pereira-Müller encontrou três grandes focos de influência portuguesa no país, sobretudo nos estados do Hawai, Califórnia e Massachusetts. Neste primeiro, a influência provem dos vários madeirenses que emigraram no final do século XIX e que fazem com que hoje seja possível encontrar receitas como ‘coush coush’ (as nossas papas de milho), ‘king’s bread’ (pão doce) ou ‘clam bake’ (uma espécie de caldeirada de amêijoas, com marisco, vegetais e chouriço). “Os EUA são um pote de mistura. É um país novo, com cerca de 240 anos, que nasceu das várias vagas de imigração. Lá as pessoas tiveram de adaptar as comidas que conheciam com os ingredientes que existiam na altura. Por exemplo, os ingleses quando chegaram aos Estados Unidos não tinham trigo para o pão e tiveram de o fazer com milho”, explica. E assim foi nascendo “uma cozinha de fusão que depois se tornou a cozinha americana”.
A ideia desta obra surgiu há cerca de nove meses, precisamente a 4 de julho, dia em que os Estados Unidos celebram a sua independência. “No meu passado académico aprendi muito sobre a sua história mas é claro que o livro envolveu um grande processo de investigação, sobretudo em bibliotecas. E como sempre fiz muitas férias nos Estados Unidos, ao longo dos anos, acabei por adquirir conhecimentos por essa via”, refere. Mas como? “Em idas a restaurantes típicos, das várias regiões do país, provando a comida e pedindo as receitas aos cozinheiros”, explica.
A autora entende o preconceito relativamente aos americanos. E justifica. “O modo de vida deles é diferente, mais acelerado, em que tudo é transportável, inclusive a comida”. Na verdade, é muito difícil comer produtos frescos. São caros. “A classe baixa americana nem sempre tem acesso a produtos mais saudáveis. Os enlatados são mais baratos. Veja-se um molho de tomate de lata, que pode ser saboroso mas sem valor nutricional”, refere. Para além de que, segundo a autora, o conceito de comida caseira para os americanos é diferente do nosso. “Muitas das suas receitas têm comida processada nos ingredientes. Em vez de por exemplo, ensinarem a demolhar o feijão, sugerem logo a lata. A comida caseira é uma mistura entre a processada e a fresca”.
Sobre a autora, a escrita nunca foi algo que teve em mente. Foi surgindo com o tempo e com a necessidade. Após tirar Línguas Germânicas na faculdade, em Lisboa, aventurou-se para uma experiência na Alemanha, enquanto professora. Por lá, os seus amigos, curiosos sobre a cozinha portuguesa, pediam-lhe várias dicas. Quando voltou a Portugal, no final na década de 80, acontecia o mesmo, desta vez com os amigos de cá. “Ia dando receitas mas depois pensei que se calhar era mais fácil fazer um livro”, afirma. E assim foi. Nascia o seu primeiro livro de cozinha com receitas alemãs. As viagens sempre foram uma paixão. Assim como a cozinha. “Não me considero cozinheira. Apenas gosto muito de comer”, refere. A força de vontade e a insistência em passar para o papel aquilo que vivia valeram-lhe já mais de 30 livros publicados, entre contos e livros de gastronomia como são exemplos ‘Sabores da China’ (2008), ‘Cozinha Árabe’ (2009) ou ‘Pão feito em Casa’ (2011). Em breve está previsto mais um, refere a autora, “sobre o pastel de nata”.

Título: A verdadeira cozinha americana: histórias e receitas
Autora: M. Margarida Pereira-Müller
Editora: Colares Editora
Páginas: 150
PVP: 18€
