Paulo Amado conversou em vídeo para a terceira série do Boca Mole com Miguel Castro e Silva (Mercado da Ribeira Food Corner e Casário, Porto), Miguel Júdice (Eleven, Naked, Filosofia e Geographia, Lisboa) e Mário Almeida (Espaço Espelho de Água, Lisboa) para iniciar um tomar de pulso ao atual momento da restauração em Portugal. Agora surge a mesma conversa em formato entrevista. Ei-la de seguida.

Paulo Amado (PA): Miguel Castro Silva está em Lisboa, mas além do seu restaurante no Mercado da Ribeira, tem também os seus trabalhos com o espaço Porto Cruz e o Hotel e mais a Quinta do Ventozelo. O Mário Almeida tem o espaço Espelho de Água em Lisboa, Miguel Júdice tu, neste momento, estás só ligado ao Eleven ou tens outros projectos aí?

Miguel Júdice (MJ): Não, estou ligado ao Eleven, Quinta das Lágrimas, Nacked, Filosofia…. vários restaurantes em Lisboa.

PA: Ok, ok, ótimo. Obrigado por estarem aqui, estamos aqui em mais uma edição do programa Boca Mole e a ideia é podermos conversar sobre o momento da reabertura, saber antes de mais em que ponto estão vocês e depois como é que vai ser a vossa ideia de reabertura. Começaria talvez por ti Miguel Castro e Silva… Neste momento, os espaços dos quais és proprietário ou consultor, eles estão encerrados, verdade?

Miguel Castro e Silva (MCS): Neste momento tenho as operações todas fechadas e está previsto arrancarmos em junho. O hotel Quinta de Ventozelo vai arrancar em junho. O espaço em Gaia, que foi todo remodelado por isso estava fechado quando aconteceu esta coisa, vamos arrancar também provavelmente em junho.

CA: Atualmente teu é só o do Mercado da Ribeira?

MCS: Sim, ainda não tenho confirmação da reabertura, mas estou a contar também para início de junho arrancarmos.

PA: Miguel tu também tens alguma coisa no Mercado da Ribeira, não tens?

MJ: Também, também.

PA Então faz-me uma radiografia rápida sobre o estado dos restaurantes dos quais és proprietário ou tens participação.

MJ: Bom, eu tenho alguns fechados, alguns a servir delivery e take away. Estou a contar abrir os conceitos mais simples, mais direcionados para o mercado nacional e de bairro quase até ao final do mês. Aqueles que provavelmente irão abrir mais tarde são os que têm uma componente de mercado estrangeiro mais elevada e que nesta fase vai ter menos clientela apesar dos restaurantes terem de ser reposicionar e procurar outro público, mas ainda assim há restaurantes que têm operações mais caras de abrir e portanto temos que ter alguma atenção a isso.

PA: Ok, Mário, o espaço Espelho de Água está fechado ou chegou a ter take away?

Mário Almeida (MA): Está fechado, está fechado, aquilo é um local muito turístico, longe dos bairros residenciais então achámos melhor fechar nesse sentido.

PA: E qual é a tua previsão?

MA: Eu ainda tenho que reunir com as pessoas, mas estou a pensar em abrir dia 18, mas vai ser relativamente complicado. Eu moro aqui relativamente perto e ando muito ali junto ao rio e há muita gente, mas vão abrir e ver.

PA: Olha e neste entretanto estiveste em layoff?

MA: É, tenho todas as pessoas em layoff, fechámos o restaurante a 19 de março e o layoff começou a partir de abril. Ainda não recebi nenhuma notificação… eu digo que estou em layoff mas até agora ainda não tivemos nenhuma notificação.

PA: Miguel Júdice e tu?

MJ: Layoff.

PA: Já recebeste?

MJ: Não recebi nada, é uma vergonha. Eu vou aproveitar para fazer algum comentário que é um comentário que não é só meu, atenção. Eu comunico e falo em grupos e num deles estão mais de 200 donos de restaurantes e fiz uma breve sondagem e mais de metade ainda não recebeu. A situação é absolutamente trágica. Portanto nós temos que adiantar o dinheiro numa situação que foi imposta a todos e eu acho que o Ministério da Economia e do Emprego não está a fazer um bom trabalho. Eu sei que é difícil, eu percebo a posição porque é uma calamidade aquilo que aconteceu. Se tivesse no lugar deles provavelmente faria pior do que aquilo que eles estão a fazer, mas isso não desculpa o facto de não estar a ser feito um bom trabalho e as empresas não estão a ser apoiadas. Existem muitas pessoas que ainda não receberam o apoio do layoff, que ainda não receberam os empréstimos. Nós não temos tanta precessão porque somos um povo pacato. Estamos mais calados, não fazemos greves então eu acho que as pessoas estão a achar que está tudo bem, mas está tudo mal.

PA: Ok, eu tenho acompanhado esses grupos, daqui a pouco já vamos voltar a eles. Miguel, tu tens outra vez a divisão entre os teus espaços e aqueles que fazes parte na consultoria. Qual foi o recurso, foi também o layoff?

MCS: Sim, num modo geral foi layoff, aqui no Mercado da Ribeira metade da equipa foi para layoff e depois tínhamos alguns no fim de contrato que não renovei, mas tive naturalmente o cuidado de que todos eles iriam ficar com um apoio financeiro tanto é que duas pessoas que não teriam ainda direito ao fundo de desemprego, mantive-as com um prolongamento do contrato precisamente para salvaguardar a posição dessas pessoas. No caso do norte, uma grande parte das pessoas foi para layoff.

PA: Olha tu que és um homem da grande técnica culinária, das contas e dos modelos tecnológicos avançados com provas dadas no país não pensaste em arranjar uma solução para fazer delivery ou take away?

MCS: Sim, há um espaço que está a funcionar que eu desenvolvi o take away e penso que estão a funcionar muito bem com base nestas novas tecnologias de entregas. A partir do Mercado da Ribeira não foi possível ter o take away. No Porto, o sítio que se tinha vocacionado para o take away é Gaia e está em obras, mas agora com a reabertura nós pretendemos ter um serviço de take away mais especializada, não entrar no esquema das pizzas e dos hambúrgueres, mas propor uma refeição completa, incluindo vinhos da casa. Já agora aproveito para dizer que do lado do Porto, o Hotel vai reabrir o restaurante para os pequenos almoços. Vamos reabrir Gaia e vamos ver como é que as coisas se comportam para depois vermos o resto.

PA: Eu não sei se os outros dois participantes sabem mas o Miguel é uma sumidade neste ponto no que diz respeito a esta cozinha diferida a cozinha a baixa temperatura.

MJ: Até lhe chamam o rei do sous-vide.

PA: Miguel Júdice, o Eleven entrou em take away há pouco tempo, não é? Não foi logo de imediato. Corre aí a ideia que o take away nestes modelos é mais para manter alguma atividade… que mal dá para pagar as contas.

MJ: Eu acho que os restaurantes que têm o seu funcionamento assente num modelo de take away, como os frangos, as pizzas e o sushi, esses eu acho que se safam, aliás porque há casos de quem já fazia take away antes o resto dos restaurantes. Apesar do nosso take away estar a funcionar acima das nossas expectativas tem que ser feito com muita cabeça. Não dá para ser feito com muitos cozinheiros, com muitos empregados, tem que ser uma estrutura muito magra para conseguir libertar um pouco a margem para pagar os custos. Não vai pagar a renda mas de certa maneira mantém a ligação aos clientes, mantém a marca viva, no limite pode conquistar algum cliente que depois mais tarde vai experimentar o restaurante. Portanto para nós em termos de desafio é uma coisa interessante, vamos agora começar a fazer outra coisa. Nós temos um relvado fantástico em frente ao restaurante com vista para a cidade e vamos começar a fazer piqueniques, ou seja, em vez de marcares uma mesa, marcas uma toalha de piquenique que dá para as pessoas estarem com as devidas distâncias. Temos um pacote de piquenique que as pessoas podem comer em frente ao restaurante com uma vista fantástica. Eu acho que os restaurantes têm que se reinventar um pouco, agora a reinvenção não paga todas as contas, a reinvenção é uma coisa séria, mas os restaurantes não sobrevivem das pequenas reinvenções principalmente este tipo de restaurante que é um restaurante mais tradicional, mais de lugar à mesa sentado, mais de experiência de refeição com menu de degustação. Tmos que ter essa noção muito presente.

PA: Olha só vocês e o Epur, que são assim restaurantes de um certo nível com estrela Michelin, é que estão a fazer delivery. Tu acompanhas o que está a fazer o Epur? Como é que vês a possibilidade do mercado poder absorver isso? E achas que no futuro pode ser uma possibilidade?

MJ: Eu falei com o proprietário do Epur e ele falou-me um bocadinho como é que as coisas deles estão a funcionar. Repara, este tipo de cozinha é difícil de se fazer em take away e delivery e os próprios chefes não gostam de os fazer, vamos ser aqui muito claros. Os próprios chefes estão habituados a fazer uma refeição fine dining na sua cozinha com todas as condições, empratar e passados 30 segundos os pratos estão em frente aos clientes com toda a estética, com as temperaturas e tudo mais, mas também acho que os chefes têm que se adaptar à nova realidade. O que nós fizemos foi adaptar para take away os pratos que o restaurante está habituado a fazer, há pratos que conseguem ser vendidos em take away e há pratos que não conseguem. Eu acho que há mercado para isso, mas é uma coisa mínima, não é isso que garante o funcionamento sem espinhas de um restaurante, mas enfim, acho que pode ser um produto interessante. Eventualmente nós quando reabrimos o restaurante vamos manter, não nos mesmos moldes, mas vamos manter porque achamos que é uma forma de estar presentes na vida dos nossos clientes, com o produto que eles valorizam.

PA: Mário, tu tens uma ideia sobre o papel do governo nisto tudo, não é? O que é que tua achas que deveria ser feito e não está a ser?

Mário Almeida (MA): Pois, então. De facto a forma como nós estamos a ser apoiados… Logo ao princípio, no Estado de Emergência, houve ali um apelo para não despedirem as pessoas, e eu tenho a ideia que de certa forma os empresários acataram o apelo do governo mas de facto todo o modelo de apoio é completamente errado, eu acho que tinha que haver um “pause” e essa ideia de apoio direto às pessoas. Esta ideia do empréstimo a certa altura, com a curva do contágio, o que conseguiram foi em termos empresariais alongar a curva das falências provavelmente porque passar para a frente e com juros é um bocado complicado. Quando se coloca a questão que o Estado distribui dinheiro ou faz chegar dinheiro sem custom onde é que iria arranjar? É incrível. Por exemplo, há uma série de grandes empresas ou de grandes fortunas que não pagam os impostos ao nível que a maioria da população paga. Eu acho que deveria ser um momento de rever alguns procedimentos, porque de facto o que aconteceu foi um facto inédito, mas eu, no meu caso, tenho refletido bastante não só nisto do problema do Covid, mas de facto esta nossa postura aqui no planeta. Quando nós sabemos que 1% das pessoas têm 1% da riqueza isso é absurdo. Sobretudo quando há 20 anos não era nada desses números, então nós estamos num caminho em que esse fosso vai cada vez ser maior. E esta forma de endividar as empresas vai no mesmo sentido, porque as empresas mais pequenas vão mais rapidamente falir e as empresas grandes vão comprar as empresas pequenas, enfim. De certa forma, eu acho que é uma boa altura, já que está tudo parado, para ir agarrar no que quase todos os países do planeta já assinaram, como por exemplo, os 17 objectivos para o desenvolvimento sustentável onde há várias questões que poderiam ser aproveitadas para a opinião pública e objectivos que basicamente todos os países assinaram, mas que a população, povo não conhecem e se soubessem, se conhecessem talvez pudessem fazer uma pressão maior para que os governos tivessem outra atitude. Nós temos que ter outra atitude com o planeta, com a poluição, com a sustentabilidade. Possivelmente a gente vai esquecer o que se passou e se calhar para o ano está tudo normal, numa correria e o planeta cada vez com mais problemas. Bem, dei uma grande volta, mas a ajuda vai aparecer, porque até agora a ajuda ainda não apareceu, mas mais uma vez as empresas pagam os seus impostos, até a população paga tudo ordeiramente, cumprem as regras de uma forma geral, cumprem a lei, enfim.

PA: Miguel Castro e Silva, dás por ti em pensamentos humanistas, o que é que fazemos nós aqui? E achas que o governo pode ter outro papel? O que é que dás por ti a pensar nestes últimos tempos, estás assim em linha com o Mário ou tens algum acrescento a dar? 

MCS: É assim, tudo isto nos leva a pensar e o negócio da restauração hoteleira. embora os número tivessem a subir, eu previa que isto iria acalmar um bocado. Há muitas pessoas que nasceram para esta área depois de 2014 e são pessoas que não sabem o que é que foi há 10 anos atrás. Na altura vim do Porto com algumas chatices que tive lá em cima com o meu sócio e vim abrir um restaurante em Lisboa, em plena crise e estou nisto há quase 30 anos e já passei várias crises, vou estando vivo e por isso levo as coisas com um bocado mais de calma e tento pensar um bocadinho mais longe. Curiosamente o projeto que tenho estado a trabalhar mais recentemente acho que é um projcto que está muito bem enquadrado com a nova realidade. É uma quinta sustentável, nós produzimos as nossas frutas, legumes, horticolas, também há javalis. E temos coisas giras a quinta não produz batatas e cenoura porque o solo não é bom para isso e então quem fornece batata e cenoura leva produtos nossos, há uma troca. Também tenho feito um trabalho de valorizar a proximidade dos fornecedores com produtos regionais e por isso, de facto, acho que acabo por ter ali um projeto que se posiciona naquilo que deve ser o futuro.

PA: Mas fala-me lá de ti, o que é que andas a pensar nestes tempos? Vocês seguramente têm 20 anos, no mínimo, nisto e eu sei que já passaram todos por outros momentos menos duros em comparação a estes, a questão é que nós já vimos o resultado a seguir e aqui ainda não estamos a ver o resultado a seguir, ainda estamos ali um bocado no epicentro da coisa por muito que já estejamos a vislumbrar a abertura dos espaços.

MCS: Eu ainda hoje de manhã falava com um fornecedor com quem desenvolvi alguma parceria da Quinta Gama. Acho que me vai ajudar nessa forma de trabalhar porque consigo. E uma coisa que acho que temos que ser realistas é que que vamos ter que ser muito atinados na contratação de pessoal, não sabemos o que vai ser amanhã. Não faço ideia como é que eu vou abrir no pressuposto que tanto posso ter clientes no dia de abertura como posso não ter. Acho que temos que ser muito realistas e muito cautelosos, mas não deixar de ter algum optimismo se não, não vale a pena estar aqui nesta vida. E apesar de eu ter uma cozinha muito regional recorro muito às novas tecnologias que me permite optimizar mão de obra, optimizar qualidade, optimizar quebras, porque um dos problemas que nós temos que gerir num restaurante é as quebras. Um produto que passa de validade é um problema grave na nossa rentabilidade. Eu neste momento estou entusiasmado com este mix entre as novas tecnologias e a tradição. E quando eu falo em sustentabilidade, falo na nossa realidade, não falo numa sustentablidade um bocadinho forçada que tem sido um bocadinho a moda pelo mundo fora. Eu vou ali à floresta apanhar umas coisas no chão e que depois vou cozinhar, epá não. Nós felizmente temos muita história, temos muito para trás, eu tenho andado a fazer muita pesquisa do norte de Portugal, Beira Alta, Trás os Montes e aparecem-me coisas giríssimas. Coisas de há 400, 500 anos com a passagem dos árabes, nomeadamente em Portugal, coisas que foram parar lá em cima e nem fazima sentido. Tenho descoberto coisas muito curiosas por isso temos um grande acervo e o que eu quero fazer é contar uma histórias às pessoas.

PA: Miguel Júdice, pedia-te a ti também que partilhasses um bocado o que vi por dentro das tuas vontades e conclusões sobre o que se passa lá fora.

MJ: É claro que isto nos faz pensar na forma como nós estamos a atuar no mundo, o que é que nós podemos mudar para no fundo estarmos mais imunes a este tipo de crises. O mundo vai mudar, a forma como nos interrelacionamos com os clientes, com os fornecedores, tudo isso vai mudar um bocadinho. Algumas coisas boas vão sair desta crise, como coisas boas saem de todas as crises. E às vezes nós precisamos de um abanão para nos reinventarmos. Ontem houve um debate nos Prós e Contras e houve um consultor que disse ainda bem que apareceu esta crise porque agora o turismo vai ter que se reinventar, eu não digo isso porque acho que é um disparate, porque provavelmente esse senhor não está a sentir na pele, há pessoas com menor rendimentos que estão a ser despedidas, é uma alarvidade de afirmação. Devemos tentar ver sempre o copo meio cheio e tentar extrair destes momentos mais difíceis. Nós hoje em dia se calhar estamos na posição turística e de restauração que estávamos e com algum sucesso porque tivemos que nos reinventar na altura da última crise e  portanto nem tudo será negativo e agora vamos passar as “passinhas do Algarve”, lá isso vamos.

PA: Mas olhando em frente, tu vais abrir no dia 18 progressivamente?

MJ: Eu vou abrir e acabei de ter uma ideia, os restaurantes não fazem greve, mas eu acho que devíamos fazer uma greve, vou convidar todos os meus colegas da restauração a fazer uma greve durante seis dias. O governo obriga-nos a abrir para não perdermos o layoff então eu diria que os restaurantes devem fazer uma greve entre 18 de maio e 25 de maio, não abrir para mostrar o seu protesto. Nós também não podemos ser completamente aproveitados, não nos podem enganar, não nos podem calar. É uma forma criativa, responsável de fazer uma greve, eu não sou muito adepto de greves, mas acho que esta é uma greve com algum civismo, portanto desafio os meus colegas da restauração a não abrirem durante seis dias e a ser esse o seu protesto para a forma como isto está a ser gerido.

PA: Tu já foste dirigente associativo, qual é que achas que tem sido o papel da AHRESP que tem assumido junto do governo a representação da restauração nacional?

MJ: Eu tenho algum problema em comentar porque eu não sou associado da AHRESP. Não pago cotas, não vou exigir à AHRESP uma coisa que eu não pago.

PA: Mas e o governo?

MJ: O governo fala como entidade, não pode falar com todos os donos de restaurantes e portanto o governo acaba por falar com a AHRESP, portanto a AHRESP não está a fazer um bom trabalho. Há vários assuntos, vários temas que a AHRESP não tem agarrado com o peso que tem. A AHRESP tem um peso, tem muita força, tem um poder de lobby comocal mas eu acho que não estão a aproveitar esse poder de lobby. As questões das rendas, os restaurantes estão todos a pagar a renda como se tivessem abertos, isso é uma coisa absurda e isso vai matar muitas empresas. A questão do layoff, de não estarem a chegar a tempo e horas… A questão das inspeções de que estamos a ser alvo, estamos a ter inspeções estando fechados. A questão do dinheiro que não chegou, a questão das enormes exigências que vão ser feitas por parte do governo para a reabertura. A AHRESP não está a bater com tudo na mesa. 

PA: Mas não está porque simplesmente não aborda esses assuntos, é isso?

MJ: Porquê não sei. Eu acho que muitas das vezes estas associações têm os rabos presos. As associações vivem um bocadinho dependentes dos poderes políticos e públicos e não os querem confrontar. Por exemplo, as organizações laborais dos trabalhadores são muito mais agressivas nas suas lutas do que as associações patronais e, se calhar, o problema é esse. Nós do lado das associações patronais as formas de luta são muito meninas, são porreirinhas, são queridas. Não dizemos tudo, temos pézinhos de lã, somos mais formais, somos menos duros nas nossas tomadas de posição e acho que se calhar esse é um problema.

PA: Tu fazes parte de alguns grupos do whatsapp…. diz-me uma coisa, vês aqui união? Essa greve seria possível de convocar, ou seja, tu vês as gentes do norte, do Aagarve, do alentejo, do sul?

MJ: Oh Paulo, quando acabar esta gravação, vou começar já a disparar para todos estes grupos esta sugestão e eu acho que sim, as pessoas vão aderir. Há um exemplo, a associação dos restaurantes da Alemanha começou a fazer um protesto interessante em que cada restaurante colocou uma cadeira vazia, centenas de cadeiras vazias a enviar uma mensagem ao governo numa forma de protesto cívica, responsável, educada, civilizada, mas extraordinariamente forte. Eu acho que nós precisamos de ter em Portugal uma ideia fora da caixa destas que no fundo sinalize o nosso pesar, o nosso luto e o nosso protesto também. Não nos devemos calar.

PA: E tu, Mário, eras rapaz para aderir?

MA: Era, era, temos lá muitas cadeiras. 

PA: E esta greve de 18 a 25?

MA: Sim.

MJ: Mário, são menos sete dias a perder dinheiro. Também não é tão estúpido assim a ideia.

MA: Pois, é verdade e eu penso que o tempo também joga a nosso favor. As pessoas vão ganhar mais confiança que isto comece a reduzir. Quanto mais para a frente andarmos mais as pessoas começam a ganhar confiança de sair, porque acho que a nossa actividade é das mais difíceis de conquistar público.

MJ: O que é que acham do nome “Não abrimos já”?

MA: Está feito.

MCS: A mim parece-me que o fecho forçado fez sentido a abertura forçada não, porque cada restaurante tem um ritmo e uma dinâmica diferente e lá está, no meu caso, como são tudo espaços maiores de 400 metros nenhum deles vai poder reabrir no dia 18, mas eu também não gostaria de reabrir no dia 18 . E a conversa que nós tivemos dentro do grupo é que seria uma abertura um bocadinho forçada. Essa ameaça de “ou tu vais para onde nós dizemos ou então nós lixamos-te”.

PA: Oh Miguel, tu que do ponto de vista culinário tens bastante experiência, estás mais do que habituado aos temas da higiene e da segurança até porque noutros momentos da história da restauração também viste a tua atenção solicitada para esse tema. Estás a par deste tema da obrigação e do conjunto de obrigações de higiene com vista à proteção do pessoal da restauração e do cliente? Qual é a tua opinião sobre isso? O cliente terá que estar naturalmente seguro, mas também o empregado e com certeza a comida servida.

MCS: Nestas situações há uma tendência para exagerar e dramatizar as coisas.

PA: Tens muitas leis excelentes para cumprir.

MCS: O que eu vou fazer agora nestas próximas semana é ter ensaios, no caso de Gaia. Vamos reabrir um espaço que teve em obras, vou estar lá uma semana a trabalhar, a fazer alterações, a testar a nova cozinha e vamos também testar a parte do take away e implementar essas medidas. No caso lá em cima, a Grande Cruz Nacional, que tem outras regulamentações, nós temos técnicos de qualidade que nos vão ajudar a fazer esse trabalho e isso é uma coisa que eu delego com todo o gosto. Eu acho que vamos ter que nos adaptar e perceber. Novamente, cada caso vai ser um caso. Pode haver regras base de comportamento, mas depois também depende, porque nós não podemos estar à cabeçada com um cliente porque ele resolveu não lavar as mão ou fazer não sei o quê.

PA: Inspectores nos restaurantes, Miguel Júdice, vais ter? Os teus próprios empregados vão ser inspetores uns dos outros e dos clientes?

MJ: Quer dizer se a lei o obrigar, mas se a lei não o obrigar…

PA: Hoje, dia 5 de maio ainda. não há uma emanação clara para daqui a 13 dias.

MJ: Nós vamos ter que cumprir a lei, porque se nós não cumprirmos a lei, levamos por tabela. O Estado é muito bom a policiar e a ministra do trabalho já disse que há mais inspetores na rua a policiar as coisas. Eu próprio já tive uma inspecção num restaurante que está fechado desde março, tive a inspeção em abril. E depois contactaram a pedir para apresentar 19 documentos estando o restaurante fechado. Isto para quê? Para entupir o processo de layoff, mas enfim. E portanto o Estado vai policiar como um cão os restaurantes e portanto nós vamos ter que obedecer como bons meninos de coro e fazer o que o senhor estado diz. Vai ser uma pimpineira e um disparate total. Alguém dizia que é mais seguro comer num restaurante do que em casa e na verdade os restaurantes já têm há muito tempo práticas de higiene e segurança muito apertadas e somos controlados por isso, nós controlamos e controlam-nos externamente. Portanto vai ser mais uma camada de exigências numa altura em que estamos todos a sofrer, vamos ter que fazer mais dinheiro, investir mais e essas coisas demoram tempo a fazer, demoram horas de trabalho. E as horas de trabalho têm que ser pagas e isto vai complicar ainda mais a muito frágil condição económica dos restaurantes e eu temo que seja mais um prego nos muitos caixões que vão aparecer.

PA; E esta medida anunciada dos financiamentos a fundo perdido até 80% — é assim que foi apresentada pelo menos pelos média. Mas tem que ver apenas com produtos de higiene e para despesas entre os 500 euros e os 5000, como é que viste isso?

MJ: Epá e depois tens que preencher e apresentar 30 formulários, 50 declarações, vai demorar dois meses a chegar o dinheiro, quer dizer isto são tudo coisas feitas para que as pessoas não sintam incentivo em fazer. Como a burocracia destas coisas é tão grande o empregado vai pensar são só 300 ou 400€, olha também nem vou pedir, não compensa pedir. O tempo que se gasta na gestão nesse tipo de processos administrativos… Eu acho que isto é tudo um bocadinho para inglês ver, porque na verdade tudo espremido resume a uma mão cheia de nada.

MA: Pois eu vi a noticia e tal e hoje recebi uma coisa a dizer que isso era para as microempresas, mas acredito que vá ser para as empresas também maiores, enfim.. Pronto é isso que o Miguel disse que vamos ver  o que isso representa e ver se conseguimos esses apoios.

PA: Tu, enquanto empresário, quantos trabalhadores tens?

MA: São 32 pessoas.

PA: Se tu equacionares as tuas tuas rendas, a falta de rendimento dos primeiros tempos versus a obrigação para com essas 32 pessoas…

MA: É complicado e já que tivemos que recorrer a apoios financeiros que ainda não chegaram, mas é muito complicado. No ano passado tivemos uma margem de 20% no final do ano. agora não sei. acho que vai ser terrível. Não sabendo a evolução da doença, vamos abrir numa péssima altura, acho que não era já o momento, mas é a tal coisa acho que fomos colocados nesta segunda fase, porque acho que somos os encargos do estado e pronto vamos ver, mas é complicado.

PA: Ou vêm clientes ou tem que vir um apoio, não te parece? Não é fácil.

MA: Pois, é isso, é isso. O mercado através da clientela eu não acredito que vamos conseguir ainda por cima temos o compromisso de não despedir as pessoas. Eu ando a pensar em soluções e a pensar no que nós vamos fazer agora quando abrirmos e como vamos fazer para atrair pessoas.  A partir de agora vamos tentar comprar local, na operação vamos mudar uma série de coisas, nas ementas vamos tirar alguma proteína animal ,vamos por pratos com outra filosofia. E vamos também trazer uma série de instituições, pessoas para pôr o espaço à disposição para temas que eu acho que são relevantes para o país, para o planeta e com isso utilizar uma bandeira para trazer pessoas- Eu estou mais focado nesta forma de pensar não tanto na dificuldade que vamos ter que eu acho que vamos ter mas pronto, estamos aqui para ser gestores e para nos adaptarmos às nossas realidades.

MCS: Eu preferia deixar uma sugestão considerando um bocado o que o Mário estava a falar… Não faz sentido as empresas terem que pagar impostos referentes ao ano passado quando estão no meio desta crise total por isso a minha questão era suspender o pagamento dos impostos e juntar os dois anos 2019 e 2020 e ver o resultado desse mix.

MA: Isso é uma ótima ideia, era a AHRESP tentar fazer alguma pressão nesse sentido.

PA: Miguel, essa greve pode ser associada a meia dúzia de pontos?

MJ: Sim, sim.

MA: Um assunto que eu acho que era interessante nós termos o apoio do estado tem que ver com a promoção do país porque eu acho que de facto Portugal tem locais fantásticos. Porque não as pessoas andarem a viajar cá dentro? Porque não promoverem o país?

PA: Hoje saiu que o Turismo de Portugal vai investir milhões numa campanha de turismo interno.

MA: Isso eu acho que faz mais sentido do que aquele vídeo que ele fizeram para o estrangeiro. Por acaso estou curioso para saber quanto é que os portugueses gastaram em turismo internacional no ano passado, deve ser um número siginificativo.

PA: Imaginar que metade pode ficar em Portugal, não é?

MA: Ou na totalidade e de facto promover isso.

MCS: Eu acho que isso vai acontecer naturalmente. 

PA: Têm acompanhado as notícias que indicam Portugal como um país de topo, como um dos destinos futuros?

MCS: Ainda hoje de manhã li um artigo sobre isso.

MJ: Têm saído noticias sobre o nível de segurança, tem a ver mais com o nível de criminalidade somos o terceiro país mais seguro do mundo, mas eu acho que temos condições para sermos em termos desta segurança bacteriana ou segurança infecciosa. Mas já somos e claro que isso vai ser um bom argumento e a questão é que esses turistas não vêm tão cedo. Porque não vai haver tantos voos. As pessoas vão ter resistência a viajar, os próprios países vão desincentivar as pessoas de viajar e portanto nos próximos seis meses, pelo menos, o turismo internacional em Portugal vai ser muito reduzido, nem sequer o turismo de Espanha vai ser muito evidente. Nós vamos ter que nos contentar com o turismo interno. É obrigação do estado fazer campanha nesse sentido e os resultados que vai haver vamos ver. Os portugueses já representam cerca de 50% de dormidas nos hotéis em Portugal. Por isso acho que o mercado nacional vai ser uma tábua de salvação para todos nós.

PA: Tinha-vos convidado para termos aqui uma conversa descontraída e informada das vossas experiências, resultou na conversa e também numa greve, veremos. Miguel Júdice, Miguel Castro e Silva e Mário Almeida, muito obrigado, é preciso é continuar e acreditar.

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