Teria de chegar o meu dia. Aquele em que também eu, escrevo o meu diário. Fizemos do etaste.pt a grande casa da partilha em gastronomia, no país. Há gente a escrever diariamente, outros quando calha, e tantos como eu, cada vez mais, pela primeira vez a partilhar do seu dia.
A flor da foto nasceu no dia em que começou o nosso isolamento. No dia em que vimos o nosso isolamento profissional rimar com o isolamento familiar. Desde esse dia que tudo é mais poroso. Há mais cores, mais espaços, mais silêncios e, no meu caso, também mais tempo na cozinha. É ali que vejo esta flor, da minha janela, quando me sento à mesa para o pequeno-almoço ou almoço. Está lá à frente, destacada perante varandas e quintais nas traseiras de uma casa em Lisboa. Não sei como poderá ter ali ido parar àquele muro alto e nem consigo ver bem se são duas paredes que se encontram e se no meio há algum tipo de terra ou matéria que a faz continuar. Sei que não há por ali um canteiro e que da pedra e tijolo não poderia ter saído.
Fito a flor todos os dias, como um sinal do pormenor necessário, simbologia da sensibilidade. Sei que não durará para sempre, mas dou por mim a imaginar que a flor dura até que isto passe, ou que os dois sacos com um ramo de orégãos cada, vão durar além da crise. Ou o frasco de piri-piri que o Bertílio me ofereceu na última vez que fui jantar à Taberna Albricoque. Não me recordo de tudo o que comi mas recordo-me de ter ficado bem feliz com a evocação algarvia.
Passa-se muita coisa na cozinha e, se vos escrevo isto, quero dizer que na cozinha tenho de me focar no que estou a fazer e posso por isso evadir-me de uma parte do acontecimento. Moro no mesmo prédio do escritório e, por isso, subo ao sexto andar para gravar o Boca Mole, para as reuniões diárias com a equipa ou com alguns parceiros de projectos, como A Mesa dos Portugueses, ou a Revolta do Bacalhau. Ultimamente temos voltado ao planeamento do Cozinheiro do Ano, do Jovem Talento da Gastronomia, e estamos a chegar ao Congresso dos Cozinheiros. A voltar, digo, a pensar em setembro. Suspiro ao escrever esta frase. Setembro da luz na janela, tshirt, som, gente, comida, apresentações e a LX Factory cheia de futuro e toda a gente satisfeita. É isso, venha já setembro! Pode até chegar em maio ou junho. Venha depressa ou com calma, estamos aqui no tempo, aguardando. Como a flor, é primavera, hoje parece vir aí um dia de sol. Que bom.
