Foram precisos 49 anos para que se sentisse preparada para procurar os seus pais biológicos. Dominique Crenn, de 51 anos, foi adotada por uma família francesa com apenas 18 meses. Em 2010, abriu o Atelier Crenn, um lugar onde a poesia recebe os clientes e através dela desmistifica o menu que transmite a sua alma. Não tem paciência para crueldade e ignorância e não trabalha com ninguém que não seja humilde. É uma pessoa de pessoas. E o diálogo com elas é feito através dos pratos que traz à mesa.
Na cozinha escutam-se apenas os gumes da faca a tocarem intermitentemente na tábua. Os exaustores por cima do fogão em ilha estão ligados e retiram os vapores das três panelas ao lume. O grande braseiro na ponta está a ser carregado com carvão e pequenas fagulhas saltitam pelo ar. Observo Dominique enquanto corta em pedaços os tomates-chucha da horta da equipa do Loco. Uma sweat cinzenta, atada à cintura, abana levemente na anca. Veste um casaco de ganga e usa um chapéu cinzento. Apesar da cara quase escondida é possível ver um leve batom rosa sobre um sorriso perfeito. Os olhos castanhos olham com atenção em redor. Fala com calma para Felix Santos, de 23 anos, subchefe no Atelier Crenn, em São Francisco. Nos dois primeiros anos de existência, o restaurante foi premiado com duas estrelas Michelin e Dominique Crenn a primeira mulher nos Estados Unidos a consegui-lo. Em 2016, foi considerada a Best World’s Female Chef. Mas não é nada disso que a define.
Ao ver a máquina fotográfica, avisa logo, “no photos today”. Dormiu duas horas e o corpo ainda não se adaptou à diferença horária de oito. “Ces’t magnifique”, comenta ao comer um tomate cozinhado. Está em Lisboa a convite do chefe Alexandre Silva, que não conhecia. Um e-mail foi suficiente para perceber que gostava da sua visão de cozinha. E isso foi o que bastou para atravessar o Atlântico e cozinhar em Lisboa. Sem tempo para nos sentarmos, a conversa é feita entre tábuas, panelas e muitas provas. Pedindo utensílios, confirmando as receitas, provando vinhos, fazendo molhos, retificando outros. Só uma coisa é certa. Mesmo a 7000 quilómetros de distância, na cozinha do Loco, sente-se em casa.
Dizes que aprendeste muito com a tua mãe. Como te apercebeste que o teu sonho era ser cozinheira?
Tenho tantas memórias de infância. O tomate lembra-me os sabores da minha mãe. Ela é francesa e cozinhava em casa, com a minha avó. E viajávamos e pintávamos e ouvíamos música. Eu queria aprender mais sobre o mundo e sobre mim mesma. Sendo francesa, cozinhar está-me no sangue. Penso que a comida é uma maneira de me conectar com as pessoas.
Havia outros sonhos?
Eu tinha imensos sonhos. Viver nos Estados Unidos era um deles. Deixar orgulhosa a minha família e claro que queria que eles estivessem felizes. Queria acordar todos os dias de manhã e saber que estava tudo bem com eles. E um dia, acordei e o meu pai tinha morrido. Gostaria de fazer parte do mundo. Sonhava ser fotógrafa, mas nunca aconteceu. E quando um sonho é realizado, deixa de ser sonho. Quando és criança sonhas muito alto, mas quando cresces vais sonhando com a vida. Focas-te nos teus sonhos e tornam-se um objetivo. Tens de sonhar. Porque pode tornar-se realidade.
Nunca tentaste descobrir os teus pais biológicos?
Eu não os conheço. Não sei quem são. Mas vou tentar contactá-los. Vou procurar a minha mãe biológica este ano. Sinto que estou preparada agora. Fiz o meu teste de ADN e há seis pessoas no meu sangue que são ibéricos. E tenho quatro italianos. E franceses, alemães, escandinavos, finlandeses, asiáticos e siberianos. Sou uma pessoa do mundo.
O nome do teu restaurante é dedicado ao teu pai. Qual a importância dele na tua carreira?
É um modo de trazer a filosofia dele para a minha vida. Que era ter diferentes pessoas unidas, não julgar e perceber que nós só nos temos a nós. Perceber as nossas forças e as nossas fraquezas. Não somos melhores que ninguém. Somos todos iguais. Não interessa se és homem ou mulher, se és preto ou branco, ou se tens olhos azuis ou amarelos, nós somos todos iguais. Somos humanos. Temos de respeitar. E isso é o que quero fazer no Atelier Crenn. E não é fácil neste mundo.
O teu irmão gostou de ti, desde o primeiro dia que te viu no orfanato. Como é a relação com ele agora?
Quando estás conectado a alguém que amas, à tua família, não importa se discutem. No final do dia é o amor um pelo outro que interessa. E é bom discutir.
O teu menu é apresentado em poema – “poetic culinaria” – como defines. A poesia, ou as artes estão intimamente ligadas à cozinha? O que significa para o cliente?
As palavras são importantes e para mim é uma maneira de me expressar. É muito mais poderoso do que se simplesmente escrever “peixe” ou “vegetais” no menu. Eu não sou clássica. Nunca frequentei uma escola e esta é a maneira com que me identifico.
Há muito de ti e muita emoção nos teus pratos. “Serve my soul”, como dizes. Cozinhar é uma maneira de te expressares?
Eu não estou a pedir nada. Eu só quero que as pessoas dialoguem comigo. É emocionante o quanto me conecto às pessoas. Eu adoro-as. Fazem parte de mim e daquilo que sou. Eu quero criar uma emoção e um sentimento. Penso nisso e combino ingredientes e, às vezes funciona e outras não. Normalmente funciona.
Qual é o feedback dos teus clientes?
“Thank you very much you make me cry”. Quando cozinhas com o coração, é tão especial que as pessoas podem senti-lo. E isso para mim é sucesso. É fazeres algo que significa algo para ti e tocar as outras pessoas. É sobre ser inspirado e inspirar os outros.
Existe algum prato que mantenhas no menu, que seja especial para ti de alguma maneira?
Neste momento? Tenho um prato de milho que é muito emocionante para mim. E um prato de tomate que me relembra a minha infância. Sabe à minha vida. Sabe à minha mãe. Sabe aos campos de milho. Ao tomate do jardim. E cheira. Não cozinho porque sim. Tem de ter um propósito. Não cozinho para impressionar. Cozinho porque sinto e porque quero.
Qual o papel da tua equipa na tua carreira?
Nós trabalhamos juntos. Tudo aquilo que fazes em equipa é muito importante que reconheças. Trabalho com elas e são parte do meu ADN. Não seria capaz de fazer aquilo que faço sem eles. Por exemplo, o Felix é um rapaz impressionante, humilde, muito bom no que faz.
Que pessoa te acompanha desde o inicio?
O meu chefe de pastelaria. Conhecemo-nos há onze anos, em 2006. Ele precisava de um trabalho e eu dei-lhe um. Ele cresceu sozinho e eu cresci com ele. Juan Contreras, o melhor homem, a seguir ao meu pai, que alguma vez conheci. Uma alma linda. Um ser humano raro. Impressionante. Confiava-lhe a minha vida.
O Petit Crenn é um local onde recebes os clientes como em tua casa se tratasse? É à tua medida?
É a minha casa. Onde cozinho a comida da minha mãe e da minha avó. Só vegetais e peixe. Tudo é orgânico. E o vinho é biológico. É a cozinha que me representa. E o tipo de comida que eu como todos os dias. E que comia quando era pequena. É literalmente uma casa. É muito divertido.
Qual o momento alto da tua carreira?
Quando o meu pai me olhou nos olhos e disse: “Estou mesmo orgulhoso de ti”.
Foste a primeira mulher a ganhar duas estrelas Michelin nos EUA. Porque não vemos mais mulheres na cozinha? O que é preciso?
Há imensas mulheres na cozinha. Elas estão em todo o lado. Vocês, os media têm de procurá-las. No México há imensas mulheres que são chefes. Em São Francisco, acontece o mesmo. Os media estão focados nos homens. Durante algum tempo foi um mundo deles. E os média não estão a prestar atenção. Eu não quero a atenção para mim. Quero que as pessoas oiçam. Para mudar ideias. Não sou uma rock star.
Ganhaste o ‘World’s Best Female Chef?’. O que é que isso significa para ti?
Não sei. O que posso dizer? Um chefe é um chefe, não interessa se é homem ou mulher. Aquele prémio, é um bocadinho estúpido. Mas, se isso ajudar as mulheres a serem ouvidas, digo que sim. Mas espero que daqui a dois anos deixe de existir. Se querem atribuir um prémio ao melhor chefe que não distingam os géneros. Quando me deram o prémio fiquei muito hesitante. Eu não sou melhor que ninguém. E ninguém é melhor que eu.
Em dois anos ganhaste duas estrelas Michelin…
É bom para a equipa. Mas esses prémios não te definem. É o que fazes com eles que te define. No final do dia tens de trabalhar e saber que é para continuar. Dá-te exposição, mas não vai ajudar-te a ser melhor.
Que chefes são para ti uma referência?
Hmm… Adoro a Elena Arzak. Quique DaCosta, em Dénia, tenho muito respeito pelo seu trabalho. O Andoni Aduriz, de San Sebastian. Anne-Sophie Pic, do Maison Pic e Michel Bras, do Le Suquet, ambos em França. Há muitos chefes fantásticos no mundo. Gosto muito dos espanhóis e franceses porque me identifico com a maneira de eles verem a cozinha.
Quais são os teus planos para o futuro?
Tenho tantos sonhos. Estou no caminho para alcançá-los. Vais saber quando eu lá chegar. E nem tudo o que tenho de fazer é sobre comida. Mas a comida esta relacionada com tudo na sociedade por isso…. Mas não posso contar-te. Posso contar às estrelas. A uma, a duas, a três ou às milhares.
