Estamos a meio de março e o Boi-Cavalo abre as portas para um jantar único onde o anfitrião, Hugo Brito, convidou o crítico gastronómico Miguel Pires, a preparar um menu a quatro mãos como falámos aqui. O objectivo? Proporcionar uma boa experiência “fazer as coisas a sério mas não demasiado a sério”, é a convicção do anfitrião.
Miguel mostra-se calmo enquanto segura a parede da cozinha aberta do Boi-cavalo conversando com os convidados que já chegaram. Até aqui, nada diferente de um jantar no Boi-Cavalo. Hugo Brito faz as honras da casa. Está atarefado a respiração acelerada, assim como o ritmo. Chama a equipa. Faz a verificação dos convidados. Olha as mesas. Está tudo. Pede o menu à chefe de sala e, juntos, confirmam a ordem dos pratos. A loiça para as entradas está distribuída uniformemente sob a roda, o local onde se vai empratar. Na cozinha, os bicos estão acesos e a mise-en-place descansa no balcão.
O ambiente é informal e descontraído. Nem Miguel, nem Hugo usam jaleca. Ainda há tempo para uma cerveja. As calças de ganga assentam sob os ténis de desporto, uma t-shirt, tudo na maior, afinal estão a cozinhar em casa.
Começou com as umas brincadeiras nas redes sociais. Miguel sempre partilhou no Instagram pratos e localizações de restaurante. Um dia, um amigo seu, indignado, confessou-lhe: “estou a tentar procurar o restaurante #HomeLisboa mas não encontro”. Quando percebeu que afinal não era um local, mas, a casa de Miguel, o amigo incentivou-o a cozinhar para o público. E não foi o único. Para Hugo Brito, os filtros da aplicação “até fazem o prato parecer bom” e foi por piada que convidou Miguel para prepararem um jantar em conjunto. Acena à equipa para ligar a música, está tudo pronto para começar.
Há uma palavra a dizer sobre os vinhos escolhidos pela Casa Passarela e Joaquim Arnaud. Foram garrafas “fora-da-caixa”. Veja-se o Fugitivo, um vinho que não escapa às honras do nome que lhe deu origem, já que, “foge à norma do que é feito na casa”, explica João Quintela, o seu produtor.
O primeiro prato é o do chefe da casa. Carapau seco e fígado com pickle de pepino e maçã. Ao mesmo tempo o segundo momento, o berbigão de Aveiro, brocollini e tempura de tinta de choco. Chega a hora do crítico que arrisca e apresenta fígado de tamboril e salada de ervas. De seguida, é servido grão, caldo de pezinhos de vaca regado com molho de limão, outro prato do convidado, que explica que para o molho, ferve as cascas “de um limoeiro com 50 anos” às quais junta mel e o sumo dos ditos limões.
Nos bastidores, Hugo prova o puré que aquece em banho-maria e começa a fazer o vinagrete para a salada. Miguel distribui os pratos pela roda e faz cair um pote com utensílios da cozinha. “Ter-te cá vai dar prejuízo ao Boi”, sorri Hugo e prova as línguas de vaca, cozinhadas por Inês, o seu braço direito. “Vamos começar pelas mesas de quatro”, diz o chefe à equipa de sala. Uma colher e meia de puré de couve-flor, a porção “choruda” de língua de vitela, uma colher do jus caramelizado e Miguel avança com a salada. Está servido o último prato salgado.
Para limpar o palato, um momento conjunto, o Miguel trouxe o queijo dos Açores, o pão é da Gleba e o Hugo tratou dos pepinos. De seguida serve-se uma sobremesa da casa. Uma pincelada de chocolate branco caramelizado, morangos verdes marinados em rúcula, iogurte e “espuminha de batatinha”, como se pôde ler na carta.
“É totalmente diferente cozinhar para pessoas que nos estão a pagar”, diz Miguel claramente satisfeito com a experiência de cozinhar num restaurante. Para Hugo, “a cozinha tem a ver com gozo” e o Boi-Cavalo é um restaurante ideal para acolher isto, está à vista.
Estamos em Alfama, nesta Lisboa agitada com uma gastronomia cada vez mais vibrante. Arrastam-se algumas cadeiras e saímos sorrindo. Lá fora, a rua dos Remédios corre mansa.
