Os tuks-tuks enchem o largo da Sé carregados de turistas já cansados das sete colinas lisboetas. Os resistentes sobem a encosta a pé, parando no miradouro de Santa Luzia para apreciar a vista. O trânsito pára para deixar passar um empregado com uma travessa na mão e, por esta altura, as esplanadas enchem-se de borrifos de água para abafar os 30 graus. Passamos a travessa do funil até vermos a muralha do Castelo de São Jorge que descansa no topo da capital portuguesa. Mesmo antes, atravessamos o grande portão vermelho do Palácio Belmonte. É aqui, sobre ruínas romanas que, desde março mora o Leopold.
Tiago Feio já está à porta encostado à ombreira. Com o telefone no ouvido esquerdo levanta o indicador em sinal de espera: é importante, mas convida-nos a entrar. Cá dentro, ‘she wants revenge’ ecoa do computador pousado na bancada da cozinha. Ao contrário do antigo Leopold, que nasceu numa antiga padaria, na Mouraria, despido de equipamentos, aqui “há uma cozinha a sério”, elucida Tiago.
Passos à frente, a cozinha aberta permite uma relação com o cliente e, na sala existe ainda uma mesa comunitária, onde se podem sentar várias pessoas desconhecidas para a partilha da experiência. As mesas em madeira clara, desenhadas por Álvaro Siza Viera casam com as cadeiras em cabedal de Manuel Neto. As paredes vestem-se de quadros como se uma galeria de arte se tratasse e, Tiago afirma que gosta do facto “de não parecer um restaurante”.

Para o chefe, com um passado ligado à arte, esta aproximação da experiência gastronómica com as artes plásticas e design é algo que o fascina bastante. Identifica-se com o desafio de criar com restrições e, por isso, a aposta é na “continuidade da cozinha contemporânea do Leopold” com alguns aperfeiçoamentos. Para além da versão melhorada da cozinha, quanto a equipamentos, agora Tiago lidera uma equipa de cinco profissionais e serve quase o dobro de comensais (22 pessoas).
O menu de degustação é composto por oito a dez pratos e, muda sazonalmente, consoante a duração de tempo dos produtos locais, e entre cada estação. A aposta vai também para vinhos naturais e de pequenos produtores, que “reflitam o terroir do ano”. Olavo Silva Rosa, o sommelier, é o responsável pela visita às produções e autor do menu de degustação de vinhos. Existe ainda, cerveja artesanal feita por uma vizinha americana que “produz as cervejas na sua garagem”, conta Tiago.
A louça, desenhada por Teresa Pavão, nasce das conversas entre o chefe e a ceramista. Os pratos são pensados para que tenham coerência ao longo do menu e imprimam algum “ritmo durante a refeição”, explica. O chefe, depois de ver as louças adapta o prato em termos de apresentação e do modo como o cliente o vai comer. Já em 2016, na 12.ª edição do Congresso dos Cozinheiros, Tiago Feio apresentou um suporte, desenhado por Manuel Neto que gostaria de continuar a desenvolver.
Num futuro próximo, o chefe do Leopold revela que tem em mente ampliar o espaço para o pátio exterior com uma esplanada e, talvez, começar a servir almoços. Para já, pretende continuar a ligar-se ao bairro e a mostrar a sua cozinha “livre com restrições”. No antigo espaço fazia-o por necessidade, mas foi assim que chegou à conclusão que é exatamente com essa “linguagem que se identifica”.
O menu de degustação tem o valor de 45€ sem bebidas.
Contactos:
Pátio de Dom Fradique, nº12
1100-261 Lisboa
Telf.: 218 861 697
Horário: Apenas jantares de quarta-feira a domingo.
