Lisboa é a mais recente aposta de Martín Berasategui. O chefe basco de 58 anos, detentor de oito estrelas Michelin, empresta o nome ao novo restaurante localizado no topo da antiga Torre Vasco da Gama, com o português Filipe Carvalho no comando.

FICHA TÉCNICA:

Nome: Fifty Seconds Martín Berasategui
Chefe: Martín Berasategui (chefe executivo) e Filipe Carvalho (chefe de cozinha).
Conceito: A linha e essência de Berasategui, com clássicos do chefe basco e outras sugestões, completamente novas, pensadas em conjunto com o português.
Dica: Existem três pairings de vinhos disponíveis. Se optar por beber a copo, conte com o sommelier de serviço para fazer a escolha mais acertada.
Morada: Myriad by Sana. Lote 2.21.01, Parque das Nações, Rua Cais das Naus, Lisboa.
Telefone: 211 525 380
Horário: Aberto todos os dias, ao almoço, das 12h às 15 e ao jantar, das 19h às 23h.

Na ideia

Espanha, México e República Dominicana são as principais sedes dos restaurantes do chefe basco Martín Berasategui. Chegar às duas dezenas é um objetivo que paira no horizonte, e já se avista esse alcance, com mais aberturas programadas para 2019. Mas falemos da mais recente, que é também a que nos toca: Fifty Seconds Martín Berasategui, em Lisboa, um restaurante que nasce de uma parceria entre o chefe e a cadeia Myriad by Sana Hotels. Apesar de a carta estar marcada pelo cunho do espanhol, neste espaço estão evidenciados uma considerável lista de produtos locais — à semelhança do que acontece nos seus outros projetos fora de Espanha. Peixes e mariscos são os mais evidentes, começa por enumerar Filipe Carvalho, o homem de confiança de Berasategui em Lisboa. E é fácil perceber o porquê da escolha: “Temos muita consistência nessas opções. E o chefe faz questão que se utilize produtos lusos. Já a nível de carnes, por exemplo, devemos ir buscar grande parte lá fora, precisamente pela pouca consistência apresentada por cá”, explica, apesar de acreditar que as coisas estão a melhorar nesse aspecto.

O primeiro contacto do português com o grupo do chefe espanhol aconteceu por volta de 2014, quando este ainda era subchefe de João Rodrigues no Feitoria. “Abordaram-me para dizer que gostavam do meu trabalho. Entretanto, surgiu o convite para me juntar ao grupo”, recorda. O português, de 32 anos, com experiência anteriores junto de António Bóia no Rio’s, Vincent Farges na Fortaleza do Guincho e Dieter Koschina no Vila Joya, aceitou prontamente o desafio. Passou “quase” três anos no Lasarte, em Barcelona (três estrelas Michelin), até sentir a falta de Portugal e de ter um projeto seu. Haveria de ser este. “Surgiu este projeto com o Sana Hotels e o chefe deixou logo bem claro que queria que fosse o seu chefe em Portugal”. E assim foi. Voltou e durante ano e meio preparou os detalhes do restaurante que vê agora ganhar vida. “Já queria afirmar-me como responsável principal de um restaurante e o ele acabou por me dar o Fifty Seconds, para fazer o que eu quiser — mas, claro, tendo sempre a linha e a essência Martín Berasategui, bem como, o suporte do grupo por detrás”, diz. Esta aposta em Lisboa vem mostrar o “bom” momento gastronómico que Portugal está a viver. “Os cozinheiros portugueses estão cada vez melhores, há muita qualidade. O pessoal de fora já começa a perceber isso”, afirma orgulhoso.

O português Filipe Carvalho é o homem de confiança de Berasategui em Lisboa. Foto: Ví

O português Filipe Carvalho é o homem de confiança de Berasategui em Lisboa. Foto: Vítor Duarte

No espaço

Como o ETASTE revelou previamente, o nome Fifty Seconds tem a ver com o tempo exato que o elevador do hotel demora a chegar ao topo da antiga Torre Vasco da Gama, onde está o restaurante. À entrada, os clientes vão ser recebidos por Inácio Loureiro (ex-Fortaleza do Guincho, Cascais), o diretor de sala, naquela que, garante Filipe, será “uma experiência exclusiva, a 120 metros de altura”.

À vista, há mesas dispostas em meio círculo, em que se podem sentar até 35 comensais — e que tem como responsável Rui Monteiro (também ele ex-Fortaleza do Guincho), chefe de sala. Cobre e azul são os tons que dominam este Fifty Seconds Martín Berasategui. A garrafeira está totalmente descoberta e recheada com cerca de 450 referências — cerca de metade das quais portuguesas —, escolhidas a dedo por Marc Pinto (ex-Lasarte, Barcelona), o sommelier de serviço. De resto, este restaurante vive de pormenores idealizados pelo arquiteto de interiores Nuno Rodrigues e as suas equipas Metrobox e Stabörd — e que à noite podem ganhar outra vida. Filipe explica: “Quem vem para jantar tem uma experiência diferente, mais intimista. E repara mais no que está dentro do espaço. Ao almoço, é tudo muito descontraído. A vista de fora é o foco.” E, por falar nisso, o português acredita que a localização representa uma vantagem, ao contrário do que muitos possam pensar. É certo que o Parque das Nações não tem metade da oferta gastronómica de outros bairros lisboetas, como o Chiado ou o Príncipe Real, mas isso é algo que pode mudar com o tempo.

A experiência começa no elevador — que demora precisamente 50 segundos a chegar ao cimo, onde está o novo restaurante. Foto: DR

Na mesa

Seis entradas, três pratos de peixe, três pratos de carne e quatro sobremesas — da responsabilidade das pasteleiras Maria João Gonçalves (ex-Lasarte, Barcelona) e Joana Gonçalves (ex-Bon Bon, Carvoeiro) —, são as ofertas do primeiro restaurante de Berasategui em Lisboa. Nos dois menus de degustação (de cinco ou oito pratos) e nas opções à la carte encontram-se clássicos do chefe basco, como o mil-folhas caramelizado de foie gras, maçã verde e enguia, a salada de verduras, ervas e pétalas, brotos com puré de alface e lavagante e o coelho do monte ‘à lá Royale’ — opções essas que “provavelmente” vão ser fixas, revela Filipe, que na cozinha é auxiliado pelo seu subchefe, Edgar Costa (ex-The Yeatman, Porto).

Depois, há lugar a outras sugestões, pensadas pela equipa juntamente com Berasategui e que vão mudar de forma frequente. Casos da pá de borrego de leite com soro de parmesão e cogumelos de origem nacional e da pescada grelhada, com cebola trufada e amêijoas (de Aveiro, de onde Carvalho é oriundo), em que o chefe utiliza um peixe “desvalorizado” por alguns mas “amados” por outros. “Aprendi a gostar de comer pescada em Espanha. Uma vez cozinhado no ponto certo, é tão bom como um robalo, por exemplo”, garante.

Quando falamos em estrelas, Filipe Carvalho não esconde que a meta do restaurante é mesmo essa e o “grande” investimento por parte do grupo hoteleiro revela isso mesmo. O português afirma convictamente que a vinda de Martín Berasategui para Lisboa pode muito bem acrescentar valor ao país e abrir os olhos ao guia Michelin. “Não é à toa que a cerimónia acontece este ano acontece por cá”, frisa Filipe. É que após décadas de comparações entre Portugal e Espanha, não se esperam vencedores desta união, no alto da Torre Vasco da Gama. Apenas um casamento que se espera que resulte.

O clássico prato de salmonete de Berasategui que Filipe vai recriar. Foto: DR

O clássico prato de salmonete de Berasategui que Filipe vai recriar. Foto: DR