De Grândola viajou para perseguir o sonho das artes. As Caldas da Rainha foram a sua primeira paragem, onde fez a licenciatura em Design Industrial. É em Lisboa, que decide afunilar o seu caminho e optar pelo mestrado em Design de Produto. A Malga, empresa que criou em 2015, não veio logo. Antes, Mariana Filipe, de 27 anos, andava aqui e ali, entre trabalhos experimentais. Mas a vontade de imprimir as suas próprias ideias levaram-na a um novo desafio. Com a ajuda dos pais, surgia a marca Malga e a primeira coleção de seis peças, feitas a partir de cerâmica, com origem no cocharro de cortiça. “O cocharro, ou cocho, é um objeto em cortiça que resulta dos nós nas árvores e era utilizado para os trabalhadores do campo beberem água dos riachos e das fontes”, explica Mariana. As peças foram idealizadas para se adaptarem a qualquer parte da casa. Mas o foco na cozinha é grande. E, talvez por isso, que entre encontros e conexões, acabou por se cruzar com o chefe Rodrigo Castelo, do restaurante Taberna Ó Balcão, em Santarém. O entendimento foi imediato e a primeira parceria foi apresentada na recente edição do Peixe em Lisboa. A coisa correu tão bem que Mariana já prepara as próximas peças do chefe para o evento Sangue na Guelra, a ter lugar em maio, na capital. “Gosto da associação com a cozinha, é uma área muito criativa. E ajuda na experiência gastronómica”. Esta não foi a sua primeira experiência na gastronomia. Há não muito tempo, já tinha idealizado um conjunto de pratos e travessas para a Taberna da Vila, em Grândola. A autenticidade é importante e Mariana sabe disso. As pessoas cada vez mais procuram o diferente, o invulgar. E entre os chefes de cozinha isso é também evidente.

Nesses trabalhos e nos outros que desenvolve não há um processo definido de criação. Normalmente, ouve atentamente os pedidos dos clientes e vai fazendo testes em papel. E depois, mais tarde, aplica. No procedimento, o tempo é crucial. A cerâmica requer calma e paciência, e Mariana tem-na. Esperar que as peças cozam no forno e depois sequem pode demorar vários dias. “Há que saber respeitar”. A arte que tem a argila como matéria-prima nunca esteve nos seus planos. Foi algo que surgiu e acabou por resultar. “Fui criando o meu estilo. Sempre fui autodidata”. Foi um ato de coragem, hoje confessa. Abrir um negócio próprio aos 25 anos pode nem sempre correr bem. Mas o facto é que o balanço geral é positivo. “A minha ideia sempre foi fazer com a cerâmica coisas ligadas às minhas origens, ao tradicional, mas também trazer alguma modernidade”. A olaria japonesa que acompanha, sobretudo através de videos na internet, é outra das influências no seu trabalho.

As criações de Rodrigo Castelo nos pratos da Malga. Fotos: DR

Um dos desafios que se deparou ao abrir o próprio negócio foi a dificuldade em arranjar espaço para desenvolver o seu trabalho. Um atelier em casa custaria fortunas. Um aluguer em Lisboa é demasiado caro. Acabou por encontrar, em jeito de “milagre’, um espaço no pequeno atelier do Páteo Alfacinha. Mais recentemente, divide o seu tempo entre a zona da Ajuda e de Marvila, onde está a Fábrica Moderna, e trabalha em projetos relacionados com a cerâmica e as novas tecnologias. Ser ceramista em Portugal pode não ser tarefa fácil mas esta é uma área em “crescimento”. O trabalho que existe entre os especialistas portugueses é “muito bom”. Contudo, Mariana sente que não existe uma união tão grande como aquela que vê em Inglaterra, país que espera visitar muito em breve.

O gosto pela cerâmica é óbvio, mas Mariana não descarta a possibilidade de abordar num futuro outras técnicas. A parceria com Rodrigo Castelo é para continuar e a próxima ideia é a de fazer pratos em pedra de sal. Daqui a uns meses, no início de verão, vem uma nova coleção. E a vontade de continuar a dar uma outra utilidade à cortiça mantém-se. Por agora, podemos encontrar o seu trabalho físico na Wetani em Lisboa e numa loja local, em Grândola.

No futuro, o desejo é o de voltar ao Alentejo. Enquanto isso, é aproveitar Lisboa e as suas oportunidades. “Estão sempre a aparecer coisas novas cá. Não podemos ficar parados”.