O sol ainda não tinha nascido quando os primeiros alunos começaram a chegar. À entrada da escola escutavam-se apenas os passarinhos. A primeira prova iniciou-se poucos minutos depois das 7h. Estamos na 6ª edição do concurso Jovem Talento da Gastronomia (JTG), na Escola de Hotelaria de Portalegre.
Ficar depois das aulas para treinar, comprar os próprios ingredientes, pedir opiniões aos chefes, dar a provar aos amigos e aos familiares, explorar tempos e técnicas de confeções e, claro, organizar tudo para que encaixe nas duas horas de prova. Estes são os afazeres das semanas que antecedem o dia onde tudo pode acontecer.
Marta Dores, Margarida Lobinho, Susana Marques e Catarina Rodrigues entram na cozinha. Quatro jovens que mostram como o ambiente duro das cozinhas não é só para “homens”. Para elas, que já tiveram algum contacto com o mundo do trabalho, quando questionadas sobre isto, ressaltam Maria de Lurdes Modesto, Marlene Vieira e Justa Nobre como referências na cozinha portuguesa. O paradigma parece estar a mudar e esta etapa prova isso mesmo.
Para Margarida o desafio de participar surgiu há algum tempo em conversa com um amigo com quem depois se estreou no JTG, em 2016. O mote deixou de ser a sede de competir, para passar a ser o “prazer de cozinhar”. A partilha da mesma paixão com diferentes pessoas e a oportunidade de aprender levaram a jovem de 19 anos, pela segunda vez, ao concurso. A curiosidade levou-a no seu primeiro estágio até Girona, onde trabalhou no El Divino e fez um pouco de tudo. As “férias de verão” de 2016 foram passadas no Belcanto, onde aprendeu o rigor e “método de trabalho” ao lado de Filipe Pina.
Já Susana quer evoluir o máximo possível. Começou ao lado do chefe António Alexandre, no Lisbon Marriott Hotel, e mais tarde no InterContinental Estoril. Participar no JTG é ter a oportunidade de crescer com o feedback dos chefes que avaliam a prova e a quem nada escapa. A lição do dia incidiu sobre os produtos e o chefe Tiago Santos não poupou em rodeios para lhe chamar à razão sobre o acondicionamento das amêijoas que trouxe para a prova. Este contacto direto com a pressão dos júris deixou-lhe a cara com muitas “lágrimas de transpiração”.
Marta não é nova nestas andanças. Em 2015, estreou-se no JTG pela categoria ‘Artes da mesa’, ou seja, em prova estariam as técnicas de serviço de mesa. Os vinhos são também uma paixão e decidiu tirar um curso para aprender um pouco mais. Quando percebeu que era a cozinha que a fazia feliz decidiu mudar de curso. Agora, dois anos depois, arriscou na pele de cozinheira. Aos 23 anos, agradece tudo aquilo que sabe ao seu professor Luís Matos que sempre a ajudou.
O tempo não foi o foco principal de Margarida, mas no concurso talvez tenha sido o maior inimigo. “Testei vários tempos e temperaturas para chegar a texturas diferentes”, mas durante prova não correu exatamente como esperava.
“Pensado bem, ainda devia ter treinado mais”, revê Susana. Por outro lado, Catarina foi muito metódica: “primeiro escolhi exatamente o que queria fazer”. Depois, pesquisou quais os elementos que não devem faltar no prato, como diferentes texturas, molho, proteína e, claro, os legumes. E, a seguir foi treinar e treinar. “Nem me lembro quantos carrés arranjei”, ri-se. Enquanto assistia à final, em 2016, pensava “nunca vou conseguir fazer aquilo”. Um ano depois, a história muda e muito. A quatro dias de terminar o prazo de inscrição para o JTG, Catarina decidiu enviar a sua receita.
“Cá fora somos todas amigas, mas lá dentro somos adversárias e eu quero ganhar”, segreda ao ETASTE, horas antes de saber o veredicto final.
“Só meninas?! É raro”, estas foram as palavras de Vasco Coelho Santos, chefe do restaurante Euskalduna e júri da prova, para descrever o ambiente exclusivamente feminino. Os júris apelam e a organização também: é bom ver as mulheres a reinar na cozinha.
No final do dia, passadas 12 horas de competição, o orgulho é muito quando ouvem o seu nome para receber o diploma de participação. E mais ainda, quando o nome se repete no anúncio do vencedor do dia. Margarida, Susana, Marta e Catarina, esta última a vencedora da etapa, sorriem juntas. Fizeram história. E, talvez quem saiba, também elas, num futuro próximo serão referência para alguém.
