Fala de alma aberta este cozinheiro que no passaporte tem nacionalidade norte-americana, mas no coração é bem português. A sua história começou quando os pais decidiram emigrar para Nova Iorque, na década de 60. No Trotters Tavern, restaurante português da família na cidade, chegou à cozinha para substituir alguém e de imediato encontrou paixão nos fogões. Hoje é chefe do Kanopi, no hotel Ritz-Carlton e imprime o seu sangue português na cozinha que pratica.
Alma portuguesa
Antes da língua inglesa dominar a maioria das suas conversas, o português era a base. “Quando fui para a escola mandaram-me para casa porque não sabia falar inglês. Tive de aprender”. Esse hábito de falar uma língua estrangeira em nada o afastou do país luso. “Tudo o que faço na cozinha começa e acaba de alguma forma em Portugal”. Anthony Gonçalves não frequentou nenhuma escola de cozinha, quem o ensinou na sua mestria foi o pai e a avó. “Tudo o que sei aprendi com eles”. Essas influências moldaram o cozinheiro que é hoje. Até aos 14 anos, ia de forma frequente a Portugal e ainda se lembra claramente de comer caracóis e amêijoas, em família. Essas experiências, garante, ficaram consigo. “Tenho a sorte dos meus pais terem achado importante eu continuar a vir, mesmo a viver nos EUA. E hoje, faço isso com os meus filhos. Eles, tal como eu, têm orgulho das suas origens”.
Depois da experiência no Trotters Tavern, aventurou-se em voos mais altos, na cozinha do hotel Ritz-Carlton, nos restaurantes 42 e Bellota. Em junho de 2016 abraçou, na mesma empresa, a responsabilidade de chefiar o Kanopi, um restaurante privado, reservado a eventos sociais vários. Na equipa, conta com Vânia Soares e Tina Brás, ambas portuguesas. No menu, garante, o seu toque criativo está lá mas de alguma forma “o sabor dos pratos vão parar ao que conhecemos da cozinha portuguesa”. Vejamos as suas versões do arroz de pato ou de lombo de porco. À primeira vista estão longe da sua apresentação típica mas “se fechares os olhos, os sabores portugueses estão lá”. E para Anthony é inevitável sair deste caminho. “Honestamente, quando faço outro estilo, a coisa não saí tão bem. É o que eu acho. Quando te sentes conectado a algo, resulta sempre melhor”.
Futuro em Portugal
Por estes dias, Anthony esteve em Portugal, a propósito da 13.ª edição do Congresso dos Cozinheiros, e aproveitou para andar aqui e ali a provar as novidades da cidade de Lisboa. Dessas experiências, destaca a “essência lusa” dos pratos que saboreou de uma cozinha que considera não seguir tendências. “A comida que provei era incrivelmente saborosa”. Mas e o futuro? Está nas mãos “da gente da gastronomia em Portugal”. Nos chefes, nos produtores e como as suas relações “crescem”. A maioria dos colegas de profissão com quem falou, conta o chefe, não têm pretensões de deixar o país. “Querem crescer cá em Portugal e isso é lindo”. É bem provável que nos próximos anos, recebamos ‘our portuguese man in New York’ com mais frequência, já como forma de preparação de terreno para esse regresso definitivo. A data ainda está em aberto mas para já, é um sonho deste americano de alma portuguesa.
*Portuguese Chefs Worldwide é uma rubrica que dá a conhecer profissionais portugueses, nas áreas da cozinha e da pastelaria, espalhados pelo mundo.
