#resistir João d’Eça Lima: Diário de um cozinheiro em Penela #30
Há trinta dias que escrevo aqui. Isso quer dizer que há trinta dias que estou em casa, a cuidar deles e a cumprir o que penso ser o melhor. Penso nisto, no que será o melhor.
Há trinta dias que escrevo aqui. Isso quer dizer que há trinta dias que estou em casa, a cuidar deles e a cumprir o que penso ser o melhor. Penso nisto, no que será o melhor.
Crescidos, podemos pensar um tiquinho mais e ir atrás do sorriso largo, da risada, da gargalhada solta, atrás de alimentar com felicidade.
E porque o mundo de hoje será diferente do de amanhã, vamos adaptarmo-nos à mudança e resistir a esta fase que por vezes parece ainda não ter saído de um filme de “Contágio” ou pesadelo longínquo, mantenham-se seguros e gastronomicamente saudáveis.
Neste momento aterrador e incompreensível que atravessamos (e que ainda me parece irreal ao acordar a cada manhã), tenho-me lembrado muito da minha avó e tenho-lhe sentido a falta. Ela vinha de um mundo em que coisas como estas aconteciam e eram reais e eu de um mundo que estava, até há poucos dias, convencido de as ter deixado há muito para trás.
A cozinha portuguesa. Dizem que tem memória. Própria. Que agora, o luxo das desconstruções terá que dar lugar a outra coisa. A essa memória e coisas que tais.
O mundo vai mudar, mas as necessidades de fazer turismo não vão desaparecer. E nós estaremos cá, prontos para receber e para mostrar a nossa gastronomia.
Teremos medo. Uma parte de nós, mais consciente, terá medo. E os restaurantes como vão pensar nisso? Terão que ser os primeiros a rever todos os procedimentos de higiene, segurança e controlo.
Somos um país fantástico. Na aflição sabemos, sempre, correr uns pelos outros. Solidários sem olhar a quem e ao quê, dispostos a dar mais do que sorrisos, rápidos na mobilização, sentidos na emoção.
Afinal, vinte e cinco dias depois ainda escrevo aqui. Afinal, já passaram vinte e cinco dias. Pergunto-me, em silêncio, se chegarei aos cinquenta.
Depois de um dia muito comprido, enfim a paz, a música no silêncio que o dia não tem. Respiro, enfim. Sinto que também Portugal respira após semanas de aflição.