#resistir João d’Eça Lima: Diário de um cozinheiro em Penela #26
Digo a mim mesmo tantas vezes: não te esqueças. Não te esqueças que já estiveste sem chão. E que foi possível refazer a vida. A força que se repete, emerge disso.
Digo a mim mesmo tantas vezes: não te esqueças. Não te esqueças que já estiveste sem chão. E que foi possível refazer a vida. A força que se repete, emerge disso.
Ana, conheço-te desde sempre. A minha vida não existe sem tu lá estares, presente ou não, e oxalá nunca viva sem que tu lá estejas. Sendo omnipresente, eu apenas me concebo contigo, mesmo que longe em distância e em opiniões.
Afinal, vinte e cinco dias depois ainda escrevo aqui. Afinal, já passaram vinte e cinco dias. Pergunto-me, em silêncio, se chegarei aos cinquenta.
Em cada folar um rosto amigo, por isso, impossível não sentir que os folares dos outros são também meus. De Trás-os-Montes aos Açores, sinto falta dos meus amigos. Talvez seja isso.
Vejo que os primeiros mecanismos se baseavam em tensão, depois em torção e, por fim, usavam a gravidade. Ignoro isso. O que eu procuro é em como erguer uma força para nos (re)inventarmos como homens e não como máquinas.
E não faz mal. Não faz mal querer continuar e não saber como. Ver cada dia passar e pensar nas despesas. Que será, se tudo se arrastar mais, dívidas. E os pendentes.
Não, o mundo não vai mudar. Não acredito nisso. Depois disto não vamos estar diferentes do que fomos na nossa vida.
Mesmo no início de Março, juntei-me com duas amigas para uma pequena viagem de surf e jantaradas na zona de Vila do Bispo. Para as iguarias pedimos dicas ao nosso professor de surf, o Gonçalo, nascido em Lisboa mas criado nesta terra mágica, onde a terra termina abruptamente e começa o mar, para juntarmos quatro dias de desporto intenso com três dias de pura euforia gastronómica.
Massa batida, roupa suja, alma limpa, pão e uma cozinha - um pleno deja vu. O suor escorria pela testa, a água transbordava pelos meus lábios e os olhos insistiam em não olhar para um relógio estranho.
Na verdade eu não defino a minha cozinha - é ela que me define. Não me inspiro - sou inspirada. E não sei criar. Os produtos falam, pedem-me coisas. Dizem-me como querem ser apresentados. E mudam. Mudam de sabor, de textura, de forma e de vontade.