#resistir João d’Eça Lima: Diário de um cozinheiro em Penela #54
Nunca gostei da lógico do “empratamento” por muito bonito que seja. Torna a alimentação num acto único. Falta tudo o resto que dá vida.
Nunca gostei da lógico do “empratamento” por muito bonito que seja. Torna a alimentação num acto único. Falta tudo o resto que dá vida.
E talvez este seja o momento para sentir essa mudança, acelerar um outro modelo. 2020 não é uma paragem ou uma interrupção, é vida todos os dias.
Aqui n'O Ferreira nada será como dantes. E 3 anos após a mudança forçada da Rua do Almada para a Rua Gonçalo Cristóvão, mesmo sob o viaduto, uma nova mudança se avizinha.
Não. Não é reabrir. Começar a pensar assim. Reabrir é fazer outra vez o que se fazia e parou só porque este tempo impossível chegou. Seria fácil, num restaurante “congelado” num momento refazer todos os hábitos, gestos e processos.
Se houve pena que me ficou no final do Inverno passado foi não ter conseguido ir a Penajóia por altura da floração das cerejeiras. Queria sentir o branco da flor que faz adivinhar o vermelho suculento e vibrante daqueles frutos tão apetecidos.
Desistir não é opção na nossa área. Tenho clientes que agradecem por estarmos abertos e querem descobrir Portugal já este verão. Essas palavras enchem o nosso coração!
É certo que todos queremos respostas imediatas. A nossa fome pelas certezas é tanta que às vezes até nos esquecemos que o tempo vai ter que passar para que elas sejam seguras e nos caiam nas mãos como fruto maduro.
Um restaurante é um negócio. A negação do ócio. Mas vive, em parte, disso. Do ócio dos outros em bons momentos.
No meio do ódio e do medo, diluem-se pedidos de ajuda, gritos de desespero e fotografias de uma realidade que não é a nossa e que pensamos que só toca os outros.
Impossível. Não dá. Não vai dar. Não pode ser assim. Hoje só penso nas vezes sem conta que ouvi estas palavras há quase um ano quando me aventurei a aceitar um desafio, principalmente a mim mesmo, de ir para um lugar isolado fazer a cozinha em que acredito.