#resistir João d’Eça Lima: Diário de um cozinheiro em Penela #24 (II)
E não faz mal. Não faz mal querer continuar e não saber como. Ver cada dia passar e pensar nas despesas. Que será, se tudo se arrastar mais, dívidas. E os pendentes.
E não faz mal. Não faz mal querer continuar e não saber como. Ver cada dia passar e pensar nas despesas. Que será, se tudo se arrastar mais, dívidas. E os pendentes.
Não, o mundo não vai mudar. Não acredito nisso. Depois disto não vamos estar diferentes do que fomos na nossa vida.
Mesmo no início de Março, juntei-me com duas amigas para uma pequena viagem de surf e jantaradas na zona de Vila do Bispo. Para as iguarias pedimos dicas ao nosso professor de surf, o Gonçalo, nascido em Lisboa mas criado nesta terra mágica, onde a terra termina abruptamente e começa o mar, para juntarmos quatro dias de desporto intenso com três dias de pura euforia gastronómica.
Massa batida, roupa suja, alma limpa, pão e uma cozinha - um pleno deja vu. O suor escorria pela testa, a água transbordava pelos meus lábios e os olhos insistiam em não olhar para um relógio estranho.
Na verdade eu não defino a minha cozinha - é ela que me define. Não me inspiro - sou inspirada. E não sei criar. Os produtos falam, pedem-me coisas. Dizem-me como querem ser apresentados. E mudam. Mudam de sabor, de textura, de forma e de vontade.
Apesar de, ultimamente, apenas ver o mundo através da minha janela, gosto de pensar no imenso Portugal Gastronómico que ainda me preenche a memória.
Posso pensar. Tenho esse direito. E se não voltar a abrir o restaurante? Se acabar por ali. Por aqui. Neste tempo. Porque as forças já não o permitem.
O futuro, pois é... já ninguém sabe. Tento ser positiva, otimista, mas estou num país onde já morrem 800 pessoas por dia. Não existe material sanitário para ninguém, nem para o pessoal do setor profissional.
Depois do cheiro a pão torrado, levantei-me ainda com os olhos meio fechados e precisei ir abrir a janela e ver como estava o céu. Estava sol, que bom. Daí até à cozinha foi um passo rápido e apressado e lá fui eu fazer as torradas e o meu chá.
Já percebemos que isto vai demorar muito mais do que o podíamos pensar. E com isso, já percebemos que não vamos ficar bem. Não, não vamos. Vamos enfrentar uma mudança do mundo. Não, não é uma crise.