#resistir João d’Eça Lima: Diário de um cozinheiro em Penela #35
Estava tudo a correr bem. Não estando a correr bem, estava num bom caminho. Há sempre coisas que não correm bem. Mas são superadas. Suplantadas.
Estava tudo a correr bem. Não estando a correr bem, estava num bom caminho. Há sempre coisas que não correm bem. Mas são superadas. Suplantadas.
Estava tudo a correr bem. Não estando a correr bem, estava num bom caminho. Há sempre coisas que não correm bem. Mas são superadas. Suplantadas.
Acho que todos sentimos isso. A saudade. Mesmo aqueles que continuam a cozinhar para outros levarem. A saudade da agitação dos dias. Das conversas trocadas. Dos aromas e dos sabores. Das palavras ditas a correr.
Estava tudo a correr bem. Não estando a correr bem, estava num bom caminho. Há sempre coisas que não correm bem. Mas são superadas. Suplantadas.
A arquitectura de um futuro próximo desenha-se. Falam os criadores de uma cozinha dita “alta” e os que defendem tudo o resto. Falam da necessidade de todas existirem. A das experiências às de memória.
Há trinta dias que escrevo aqui. Isso quer dizer que há trinta dias que estou em casa, a cuidar deles e a cumprir o que penso ser o melhor. Penso nisto, no que será o melhor.
A cozinha portuguesa. Dizem que tem memória. Própria. Que agora, o luxo das desconstruções terá que dar lugar a outra coisa. A essa memória e coisas que tais.
Teremos medo. Uma parte de nós, mais consciente, terá medo. E os restaurantes como vão pensar nisso? Terão que ser os primeiros a rever todos os procedimentos de higiene, segurança e controlo.
Afinal, vinte e cinco dias depois ainda escrevo aqui. Afinal, já passaram vinte e cinco dias. Pergunto-me, em silêncio, se chegarei aos cinquenta.
Digo a mim mesmo tantas vezes: não te esqueças. Não te esqueças que já estiveste sem chão. E que foi possível refazer a vida. A força que se repete, emerge disso.