#resistir João d’Eça Lima: Diário de um cozinheiro em Penela #25
Afinal, vinte e cinco dias depois ainda escrevo aqui. Afinal, já passaram vinte e cinco dias. Pergunto-me, em silêncio, se chegarei aos cinquenta.
Afinal, vinte e cinco dias depois ainda escrevo aqui. Afinal, já passaram vinte e cinco dias. Pergunto-me, em silêncio, se chegarei aos cinquenta.
E não faz mal. Não faz mal querer continuar e não saber como. Ver cada dia passar e pensar nas despesas. Que será, se tudo se arrastar mais, dívidas. E os pendentes.
Posso pensar. Tenho esse direito. E se não voltar a abrir o restaurante? Se acabar por ali. Por aqui. Neste tempo. Porque as forças já não o permitem.
Já percebemos que isto vai demorar muito mais do que o podíamos pensar. E com isso, já percebemos que não vamos ficar bem. Não, não vamos. Vamos enfrentar uma mudança do mundo. Não, não é uma crise.
É simples. O medo. Um cozinheiro sabe que uma imensa parte do que fazemos se baseia numa extrema confiança de quem come, em nós.
Não sabemos já como fazer para segurar as coisas. Sabemos só que as temos que segurar. Mas escapam pelos dedos.
Resistir. Isso sim é preciso. Depois, vem o chavão do reinventar. Talvez não seja isso o preciso. Preciso é reflectir. Usar este tempo que nos é dado para pensar.
Quero pensar o futuro. O que acho? O que preparo. O que penso? Que este é o tempo para descobrir caminhos. Que sabemos que não podemos ficar na mesma, nem ficaremos.
Uma coisa que um cozinheiro sabe é que o erro, esse monstro de muitas mãos, está sempre presente no dia-dia. E o imprevisto, seu irmão, acompanha-o sempre de perto.
Não, não vamos todos ficar bem. Nem bem. Nem seremos os mesmos. São horas a falar com os contabilistas, os juristas, a procurar informação. Não temos equipas para isso.