#resistir João d’Eça Lima: Diário de um cozinheiro em Penela #15
Fecho os olhos e vejo o espaço do restaurante. A sala alongada sobre o lago. Os vidros que reflectem a luz. A pergunta que sempre os clientes faziam: mesa à janela?
Fecho os olhos e vejo o espaço do restaurante. A sala alongada sobre o lago. Os vidros que reflectem a luz. A pergunta que sempre os clientes faziam: mesa à janela?
Já são 14 dias. Não importa. Serão muitos mais. Se continuar a escrever aqui, será bom. Quer dizer que estou bem de saúde. Penso assim.
Há um segredo. Na cozinha. Nos cozinheiros. Somos feitos de memória e imaginação. A memória faz-nos seguros.
Se tudo correr bem, um dia contaremos histórias destes tempos. E dos sabores destes tempos.
A cozinha, os restaurantes, os lugares em que se celebra a comida como lugar de alegria, vão renascer com a força deste tempo. E o desejo de futuro.
São dez dias a escrever aqui e os tais quatorze já com as portas encerradas. A decisão foi tomada um pouco antes de muitos. Em equipa.
Os cozinheiros são feitos de fogo. E humor. E amor. É com humor que hoje pego nas palavras. Os cozinheiros fazem-se pelo fogo.
Criar um restaurante passa por esse caminho a sós. Na decisão. Só nisso. O resto, tudo o mais, quanto mais partilhado melhor.
o domingo, havia uns certos rituais diferentes lá no restaurante. Chegávamos todos um bocadinho mais tarde (mesmo sem reconhecemos). Demorávamos um bocadinho mais a tomar o café.
Agora percebemos que a pressa era inútil. Que a urgência era uma coisa relativa. Que só as pessoas importam. Como sempre importaram.