#resistir João d’Eça Lima: Diário de um cozinheiro em Penela #16
Não, não vamos todos ficar bem. Nem bem. Nem seremos os mesmos. São horas a falar com os contabilistas, os juristas, a procurar informação. Não temos equipas para isso.
Não, não vamos todos ficar bem. Nem bem. Nem seremos os mesmos. São horas a falar com os contabilistas, os juristas, a procurar informação. Não temos equipas para isso.
Um dia farrusco, ainda assim quente pela correria das palavras que nunca me deixaram só. Nas notícias, mais opiniões e factos. E nós, à varanda. À espera de boas notícias e de um alento que venha do mundo.
Estamos a viver uma ameaça real. Rodeados de países muito mais "preparados" que nós e que se estão a desmoronar rapidamente e à vista de todos. Por cá, enquanto alguns passeiam à beira-mar porque o dia está óptimo, outros vão à luta com tudo o que podem.
A separação morde, mesmo a um mínimo de um metro de segurança, no espaço vazio de um abraço, na ausência fria de um beijo. É por isso que, em legítima defesa, trinco pão e nozes, devoro o doce de tomate, e ainda ataco as bolachas. Quem disse que resistir era fácil?
Temos chorado muito. Temos rido às vezes. Temo-nos revoltado muito, sem conseguir construir resistência neste momento, por não conseguir ainda percebê-lo e perceber que ferramentas conceptuais e práticas devemos usar.
Emocionei-me. É aqui o fogo. As bombas caem mas nós estamos vivos, e os nossos guerreiros bebem mais um trago de vida no intervalo para respiração que as batalhas lhes vão deixando.
Aqueles outros dias em que via o restaurante cheio, a azáfama da correria de quem trabalhava naquele frenesim... que saudades disso! Que saudades dos clientes, da casa cheia, do stress do dia a dia, da minha equipa!
Estamos rodeados de antíteses e paradoxos irónicos que nos deixam confusos e põem a descoberto a mais básica irracionalidade do ser humano, animal racional.
Fecho os olhos e vejo o espaço do restaurante. A sala alongada sobre o lago. Os vidros que reflectem a luz. A pergunta que sempre os clientes faziam: mesa à janela?
É a cozinhar, mesmo assim, que passo a maior parte do dia. De todos os dias. Faço o almoço, o jantar, vou pensando em receitas para levar aos meus clientes quando tudo voltar à normalidade.