#resistir João d’Eça Lima: Diário de um cozinheiro em Penela #17
Uma coisa que um cozinheiro sabe é que o erro, esse monstro de muitas mãos, está sempre presente no dia-dia. E o imprevisto, seu irmão, acompanha-o sempre de perto.
Uma coisa que um cozinheiro sabe é que o erro, esse monstro de muitas mãos, está sempre presente no dia-dia. E o imprevisto, seu irmão, acompanha-o sempre de perto.
Há um Portugal em silêncio. Aquele que fica distante e já está habituado a ter que sobreviver para além das contrariedades e dos fatalismos.
Só seremos felizes se formos humanos. Senão seremos reféns daquilo que não vivemos. Seremos seres asséticos, bem esfregados a álcool gel, bem protegidos com máscaras e outros apetrechos e sem cicatrizes por dentro e por fora.
A sabedoria, ensinou-me a vida, sorte minha, é um equilíbrio perfeito entre o que se sabe e o que se não sabe. Quem sabe tudo não sabe nada, quem duvida de tudo não tem nada para ensinar. Já a sabedoria, pelo contrário, é um misto de saber falar e saber ouvir.
Mas, ao mesmo tempo, nunca se pensou tanto no futuro como agora e nunca a base de criação, ou seja, o parar para pensar, foi tão longo e tão extenso, tantas mentes a pensar no seu futuro e no seu desenvolvimento interior, no seu eu e no seu próximo, na sua casa, no seu negócio, na sua vida e no modo como a têm vivido.
Não, não vamos todos ficar bem. Nem bem. Nem seremos os mesmos. São horas a falar com os contabilistas, os juristas, a procurar informação. Não temos equipas para isso.
Um dia farrusco, ainda assim quente pela correria das palavras que nunca me deixaram só. Nas notícias, mais opiniões e factos. E nós, à varanda. À espera de boas notícias e de um alento que venha do mundo.
Estamos a viver uma ameaça real. Rodeados de países muito mais "preparados" que nós e que se estão a desmoronar rapidamente e à vista de todos. Por cá, enquanto alguns passeiam à beira-mar porque o dia está óptimo, outros vão à luta com tudo o que podem.
A separação morde, mesmo a um mínimo de um metro de segurança, no espaço vazio de um abraço, na ausência fria de um beijo. É por isso que, em legítima defesa, trinco pão e nozes, devoro o doce de tomate, e ainda ataco as bolachas. Quem disse que resistir era fácil?
Temos chorado muito. Temos rido às vezes. Temo-nos revoltado muito, sem conseguir construir resistência neste momento, por não conseguir ainda percebê-lo e perceber que ferramentas conceptuais e práticas devemos usar.