#resistir João d’Eça Lima: Diário de um cozinheiro em Penela #43
Cada vezes seremos mais casas em nós mesmos. Isolados, para segurança e sobrevivência. É simples, o egoísmo salva.
Cada vezes seremos mais casas em nós mesmos. Isolados, para segurança e sobrevivência. É simples, o egoísmo salva.
Apesar da vontade de poder estar com os meus cozinheiros no Revolução, e da recordação do prazer oferecido pelas guitarras e teclados que ficaram em Lisboa, tenho, aqui para estes lados onde a noite é apenas eventualmente iluminada pela lua e pelas estrelas e, de quando em vez, embalada por sons que raramente identifico, tenho aqui, dizia, momentos inesperados, excitação, novidade e cultura que chegam para me manter interessado, durante pelo menos mais sessenta anos.
Para trás, ficaram as pinhas e os troços de eucalipto queimados que alimentavam a brasa e a alma de quem ali trabalhava diariamente com esforço e dedicação, os tachos de ferro a queimar, o cheiro do pão acabado de sair do forno a lenha, a azáfama das preparações e a adrenalina dos serviços, os clientes felizes e o sentimento de dever cumprido, que bom que era...
Hoje agarrei-me à poesia para dar cor ao dia. Estava a fazer-me impressão um céu, nem azul, nem cinzento. Apenas branco. Precisava de sol no meu dia, de cor, do cheiro a mar.
As Edições do Gosto, empresa especializada em gastronomia e detentora do ETASTE, lançou no último dia 23 de abril, uma campanha em formato vídeo onde demonstra o seu amor à restauração. A partir de hoje, o mesmo vídeo será lançado com tradução em várias línguas.
Sinto que, num tempo futuro, teremos saudades destes dias perfeitos e imperfeitos. Destes dias onde a ansiedade se mistura com a tranquilidade do tempo que não tínhamos.
Lentamente vamos acordando. Primeiro falam de um selo e de um manual. De medir temperaturas. De máscaras e de desinfecções. Deixamos de falar de cozinha para falar de sobrevivência.
O futuro muda todos os dias. Acho que essa é outra certeza que conquistámos. Se isso é desesperante? Talvez não. do que comer. Era mesmo a conversa que sabia bem, eram as palavras que fluíam entre garfadas que faziam sobressair o sabor. A conversa era o condimento, o sal. Falta-me a rotina dos amigos.
“Este apartamento não é assim tão pequeno. Basta-me imaginar que é grande. Basta-me cerrar um bocadinho os olhos para que ele cresça. E esta fresta de luz pode ser o sol inteiro, se eu quiser que assim seja. "
Estão por estudar as alteridades culinárias e gastronómicas surgidas e introduzidas nos hábitos alimentares dos portugueses em consequência da instauração da democracia em Portugal no dia 25 de Abril de 1974. doçaria industrial e a derrota das doçarias de cunho local, regional, conventual e monacal?