#resistir João d’Eça Lima: Diário de um cozinheiro em Penela #13
Há um segredo. Na cozinha. Nos cozinheiros. Somos feitos de memória e imaginação. A memória faz-nos seguros.
Há um segredo. Na cozinha. Nos cozinheiros. Somos feitos de memória e imaginação. A memória faz-nos seguros.
Hoje, enquanto admirava o quarto crescente de lua, vi um avião. Até achei que estava a ver mal. Depois dei por mim a pensar que há muito que não via um avião no céu.
O monstro azul escanzelado vai-se embora quando o olho nos olhos, e para mim é muito óbvio que a medicação me coloca mais atenta e sem medo de o encarar. Ele foge da coragem de não desviar o olhar. É como um cão. Conhece bem a hierarquia dos fortes.
Hoje, dei comigo a sorrir. Nem eu reparei que estava a sorrir. Só depois de sorrir reparei que o tinha feito.
Se tudo correr bem, um dia contaremos histórias destes tempos. E dos sabores destes tempos.
Nada, nem ninguém, nos poderia preparar para o que vivemos, certo e amplamente discutido. Os dramas pessoais, sociais, económicos, mundiais são tantos que não é fácil segurar a tábua da disposição.
Agora é connosco, vivemos esta oportunidade única de tudo mudar, de podermos ser outras coisas, de imaginarmos vidas melhores, mais calmas, mais pensadas, mais profundas. Sem termos de correr à procura de coisas só para nós.
De entre Celtas, Romanos, Visigodos, tornámo-nos Portugueses; os que não desistem! Os que sonham alto, bem alto! Os que vencem. Os que resistem e persistem a qualquer sobressalto.
A cozinha, os restaurantes, os lugares em que se celebra a comida como lugar de alegria, vão renascer com a força deste tempo. E o desejo de futuro.
Não estou morto, não quero morrer, não hibernei, nem me sentei no sofá com o telecomando à espera que tudo passe. Vivo, combato, quero viver e quero ajudar a definir o mundo em que quero viver.